ABERTURA DO ANO LECTIVO 1995/96 - FAPF-UEM

Abertura do Ano Lectivo 1995/96 da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane

Estamos aqui para dar-vos as boas vindas.

Que venham bem a um novo mundo de ideias que é de ideias que o homem se distingue dos animais.

À nossa volta há um mundo natural com s seus equilíbrios e os seus cataclismos.

À nossa volta há o mundo que fizemos, nós homens, para melhor vivermos ao abrigo do frio, da chuva, do sol, dos animais e dos homens.

Nos últimos sessenta mil anos passámos da caverna à cabana e da cabana ao palácio.

Nos últimos sessenta mil anos triplicamos a esperança de vida à nascença dos 25 aos 75 anos.

Nos últimos sessenta mil anos construímos uma ideia de nós mesmos, homens, mais próxima da ideia do divino ou do sagrado.

Passaram já mil anos, ou dois mil, desde que construímos as sete maravilhas do mundo.

Nos dois mil anos mais recentes construímos, pelo menos, outras setenta mil maravilhas.

Somos um animal inteligente, algumas vezes nobre, que aprende e ensina e produz e constrói.

Somos também um animal selvagem que faz a guerra e que destrói.

Por isso vivemos ainda na pobreza e na vergonhosa miséria, inexplicável a não ser pela estupidez da maldade, da ambição e da ignorância.

A universidade não é um lugar ou uma organização. A universidade é um tempo que vos é oferecido para pensar, para criar o vício do pensamento; o dever do pensamento; a alegria do pensamento.

Responsabiliza-vos pela continuação do conhecimento acumulado ao longo dos últimos sessenta mil anos de cultura penosamente estratificada.

Quando vocês, que agora começam ou que estão no fim do vosso tempo, saírem daqui tudo o que se vos pede é que sejam capazes (ou pelo menos tenham essa intenção) de continuar a construir o mundo mais eficiente, equilibrado, sustentável e belo.

Nós aqui somos construtores: arquitetos, urbanistas ou planificadores.

O edifício, a cidade ou a região são as dimensões da nossa, vossa, invenção.

A essas escalas o problema vai do individuo à sociedade, ao país e ao continente.

É nossa responsabilidade construir uma ideia de espaço, de edifício e de cidade.

A soma total de conhecimentos para o podermos fazer é colossal.

Vai da química à sociologia, da história à jurisprudência, da economia à destreza manual.

Devemos conhecer o homem e a sociedade, os materiais e as tecnologias, a geografia e o clima, a geomorfologia e as religiões.

Mas, sobretudo e antes de tudo, devemos conhecer-nos a nós próprios pois é só dentro de nós próprios que encontraremos as verdadeiras sementes da invenção.

A universidade, nesta Faculdade, dar-vos-á , se disso for capaz, nada ais que a dimensão da vossa ignorância, da nossa universal ignorância ( pois que se trata só de uma questão de grau a diferença entre a ignorância do professor e do aluno).

Disso se trata nestas questões de ensino e aprendizagem: o professor, se o é, é apenas mais consciente do que não sabe, da vastidão da sua ignorância. O professor, se o é, é apenas mais capaz de estimular no aluno a coragem da descoberta, o vício da curiosidade, a alegria da razão e do sentir, a capacidade de exprimir, a ciência de comunicar a dimensão técnica e a poética da invenção.
A isso vos desafio neste inicio da curso: a exigi sempre de quem vos ensina a honestidade do entusiasmo, a humildade da experiência, e generosidade do saber.
Mas talvez isto tudo vos pareça muito abstrato. Tudo isto mesmo se poderia dizer numa faculdade de medicina ou de direito.

É verdade.

O saber, a cultura, a ciência são universais e daí que, na universidade, o que interessa é refletir sobre o que há de comum no saber humano, não no que há de diferente.

O que há de comum em todos nós, homens de boa vontade, é querer melhorar o mundo que recebemos. O que há de comum é que só em comum o poderemos fazer.

Só quando o médico e o engenheiro, o arquiteto e o jurista repararem que estão a fazer a mesma coisa e, para isso se compreendem, só então, quando isso (raramente) acontece, estaremos a construir e a reconstruir, um novo mundo e um mundo melhor.

Nós aqui, nesta Faculdade, aprendemos uns com os outros a trabalhar o espaço é o o lugar, que é o espaço no tempo.

Nos poucos anos que passaremos juntos esperamos poder dar-vos alguma capacidade de materializar os sonhos que trazem dentro a cabeça.

Talvez mesmo, e isso é mais difícil, sejamos capazes de vos fazer acreditar que o sonho vale a pena. Que sem os sonho o homem é apenas o tal “cadáver adiado que procria”.

Quero dizer que o que nós vamos é tentar convencer-vos de que é possível e vale a pena sonhar acordado.

“ Chamados a estabelecer as regras para a fundação de Perinthia, os astrónomos estabeleceram o lugar e o dia de acordo com a posição das estrelas; eles desenharam as linhas cruzadas do decumano e do cardo, a primeira orientada segundo o curso do sol e a outra com o eixo dos céus.
Eles dividiram o mapa segundo as doze casas do zodíaco de forma que cada templo e cada bairro recebesse a influência certa das sua constelações propícias; eles definiram o ponto em que os portões deviam perfurar as paredes, prevendo exatamente como cada abertura enquadraria um eclipse da lua nos próximos mil anos.
Perinthia – segundo eles garantiram- refletiria a harmonia do firmamento; a razão natural e a benevolência dos deuses moldariam o destino dos seus habitantes.
Perinthia foi construída seguindo exatamente os cálculos dos astrónomos, diversos povos vieram povoa-la; a primeira geração nascida em Perinthia começou a crescer dentro dos seus muros; e esses cidadãos atingiram a idade de casar e ter filhos”
Nas ruas de Perinthia e nas suas praças encontramos hoje aleijados, anões, corcundas obesos e mulheres com barba. Mas o pior não se pode ver: grunhidos roucos podem ouvir-se vindos das caves e dos sótãos onde as famílias escondem filhos com três cabeças ou seis pernas.
Oa astrónomos de Perinthia estão perante uma escolha difícil. Ou admitem que todos os seus cálculos foram errados e que os seus números são incapazes de descrever os céus, ou então devem revelar que a ordem divina é aquela que se reflete exatamente nesta cidade de monstros.”

Esta cidade mítica que Marco Polo teria descrito ao grande Kublai Khan, é na realidade um sonho de Italo Calvino, um grande escritor e sonhador contemporâneo, que a descreve nas suas “ Cidades invisíveis”.
Sonhada como pesadelo assim existe na realidade da literatura para provar que tudo, se disso fizermos nossa vontade, somos capazes de sonhar.

Aqui, neste nosso país martirizado as nossas cidades, a construir, não são projetadas pelos astrónomos ou pelos astrólogos mas por nós. Não serão pálidos e deformados reflexos do firmamento constelar mas produtos da nossa compreensão informada e inteligente dos fenómenos sociais, da forma da terra em cada lugar e do seu clima, da economia dos homens e sobretudo dum longo exaustivo e profundo trabalho criativo.

Para terminar quero
Dar-vos de presente um poema de um amigo já morto que nos ajudou a viver mais fundo.

Um poema ao único instrumento que de vós exigimos que tragam sempre a postos, sempre afiado, sempre capaz das maiores audácias, sempre consciente de si próprio: a mente.

“ a mente mente completamente
não é honesta com a carne limpa
ignora o osso, o nervo finta
passa a voar pelo sangue quente
num correfuge basto indecente

a mente mente excelentemente
por gosto, gula, amor, sport
ausente desse vital suporte:
miolos moles no crânio quente
...independente, independente

a mente mente tão mentalmente
que fica longe de ser ouvida
centro da arena, nesta corrida
esconde-se atrás do burlamente
longe do corno do inteligente

a mente mente e mente à mente
que é ela mesma ( no eco dela
e ao peitoril desta janela
inteligível, inteligente)
um estar sozinho num frente a frente

a mente mente, meu deus se mente
e no entanto que belo aprumo!...
sabe que a vida é só um fumo
e que osso, carne e sangue quente

lhe dizem: mente ...veementemente”

Poema de João Pedro Grabato Dias aliás António Quadros, uma vez e sempre professor desta escola.

JOSÉ FORJAZ

1995