ABERTURA DO ANO LECTIVO 2006/07 - FAPF-UEM

Entram hoje novos alunos pela vigésima vez na história desta nossa Faculdade.

Não sei se isto terá algum significado especial.

Possivelmente não terá.

Mas nós vemos sempre uma certa magia nos números, e vinte anos já é significativo na história de um pais que só tem trinta de independência.

Gostava de me referir, e de vos propor uma reflexão, sobre estes dois pontos:

porquê esta diferença de dez anos entre o nascer do país independente e a abertura de uma faculdade de arquitectura e o que quer dizer este novo grupo de alunos a formar.

No momento da independência ninguém pôs em causa a absoluta necessidade de uma faculdade de engenharia ou uma de medicina ou uma de direito ou outra de ciências.

Todos sentiram a grande e imediata necessidade de uma faculdade de educação para formar professores já que a educação foi sempre vista como a pedra angular do desenvolvimento.

E no entanto havia muito mais engenheiros e médicos e juristas e mesmo professores do que arquitectos, no pais...

Porquê então essa falta não sentida como grave e essencial ao desenvolvimento do país?

Penso que por vários motivos:

porque a maioria dos arquitectos estava ao serviço da especulação imobiliária, que foi desmontada quase imediatamente a seguir á independência,

porque houve uma continuidade mais ou menos tecnicamente assegurada dos projectos em curso,

porque se não associava a arquitectura ao planeamento das cidade e das regiões,

porque se pensava que planeamento era da economia e da sociedade, porque, finalmente, se não sabia o que é que os arquitectos fazem.

O nosso começo, como faculdade, não foi fácil.

Durante vários anos não conseguimos sequer preencher a nossa magra quota de 24 alunos no primeiro ano.

Pouco a pouco os números foram aumentando.

Agora só temos lugar para menos do que um quarto dos que têm condições para entrar.

Que se passou nestes vinte anos?

Porque é que há menos de vinte anos havia menos do que vinte candidatos ao estudo da arquitectura e agora há trezentos?

Esta questão talvez seja melhor respondida pelos que hoje se apresentam para começar a ser formados como arquitectos.

Possivelmente terão boas razões.

Possivelmente terão algumas confusões.

Mas uma coisa é certa: já ouviram falar da profissão do arquitecto como uma actividade nobre , útil á sociedade e, certamente esperam que ela pode vir a proporcionar uma vida material confortável.

Penso que não se enganam.

Todas esses aspectos são verdadeiros.

Ou podem ser se vocês saírem desta escola preparados e conscientes das vossas responsabilidades sociais e profissionais, das dimensões éticas da nossa profissão e do código deontológico que devem seguir nas vossas relações com os vossos clientes e com os vossos colegas.

Aquelas duas dimensões, a ética e a deontológica, são as que distinguem o arquitecto do comerciante sem escrúpulos e são, por isso mesmo, tão importantes quanto as dimensões técnicas e artísticas que vêm aqui, também, aprender.

Mas há uma outra dimensão na actividade do arquitecto, na sua vida interior, na compensação espiritual que deve e pode esperar do seu trabalho: o prazer, e a enorme realização pessoal que esse trabalho lhe trás quando inventa e cria novos espaços e novas formas, onde o individuo, a família e a sociedade podem viver melhor.

Essa é uma dimensão especificamente nossa, dos arquitetos, e dos urbanistas, isto é, dos que organizam o espaço físico onde vive o homem.

Essa dimensão criativa não é exclusiva do arquiteto, do artista ou do poeta, que ele também deve ser, do médico ou do cientista.

Ela deve ser de todos os intelectuais, dos todos os que reflectem sobre o significado do que fazem, ou que do querem fazer.
Infelizmente não é sempre assim.

Infelizmente cada vez há mais quem escolha uma profissão exclusivamente pelos supostos benefícios e vantagens materiais que essa profissão lhe pode trazer em relação a qualquer outra.

Essa é a pior receita para uma vida rica e realizada

Nesta hora do inicio da vida que escolheram só há um conselho a dar-vos: apaixonem-se pelo que vão aprender, tentem descobrir toda a riqueza e toda a profundidade do que é pensar e fazer arquitetura.

Percebam que há mais prazer no trabalho de que aprenderam a gostar, do que nos prazeres convencionais que se esgotam no seu próprio tempo.

Outro conselho ainda: não é necessariamente nas aulas que vão aprender os aspectos mais importantes e mais significativos da arquitetura. É convosco próprios, a partir da vossa curiosidade e insatisfação, do vosso entusiasmo e da vossa capacidade de se maravilharem com as descobertas e as realizações do que os 40 mil anos de cultura humana produziram neste planeta e de que somos os guardiões e os continuadores.

Aos vossos professores não peçam fórmulas e artifícios.

Peçam-lhes que vos entusiasmem e que vos ensinem a aprender. A vocês próprios peçam paciência e interesse.

Não se descobrem todas as riquezas e toda a beleza desta grande aventura do espírito, e da emoção, que é fazer arquitectura, num dia ou num ano ou mesmo em muitos mais.

A nossa missão como professores é guiar-vos nessa descoberta, fazer-vos descobrir essa paixão.

Para isso é preciso acreditar-mos nela.

Espero que todos nesta sala sejamos rivais nessa paixão pela arquitectura.

Só assim seremos uma verdadeira escola.

Sejam pois todos bem-vindos a esta escola que todos juntos continuaremos a tentar construir melhor.

JOSÉ FORJAZ

2006