ARQUITECTURA, AMBIENTE E SOBREVIVÊNCIA

No início do 3º milénio estamos, sem que a maior parte da população do mundo se dê conta, à beira do abismo.
A nível planetário esse abismo significa, ou pode significar, a extinção da civilização humana e dos valores culturais acumulados e aperfeiçoados ao longo de, pelo menos, quarenta mil anos de expressão e comunicação de ideias, de criação de testemunhos materiais e espirituais de grande significado científico e cultural, do aperfeiçoamento de um código ético cada vez mais universal na sua aceitação, do aprofundamento de um conhecimento, cada dia mais profundo, da realidade objectiva e, finalmente, de uma consciência cada vez mais esclarecida da condição humana, das suas grandezas e das suas misérias.
Mas, como é de todos os que o quizerem saber, sabido, essa magnífica condição do conhecimento e do saber humanos não é garantia de salvação que, pelo contrário, está ameaçada pela inconsciência, ou impotência, pela incompetência ou ignorância, pelo egoísmo ou desonestidade de governantes e de governados.
Arquitectos, urbanistas e planificadores físicos somos mandatados, ou pelo menos pensamos que o somos, para organizar e dirigir a construção do espaço social e das suas estruturas.
Alguns de nós, ou mesmo muitos, alimentam a ilusão, ou a cegueira, de que a raíz dos nossos problemas mais essenciais é de natureza tecnológica ou de que eles podem ter soluções técnicas que, a curto, médio ou longo prazos, venham a reequilibrar, ou talvez equilibrar pela primeira vez, a sociedade humana com o ambiente natural e, assim, evitar a descida ao abismo da auto extinção da civilização e dos seus valores mais profundos.
Esta é uma posição perigosa e que ilude, ou se ilude, atrás de argumentos tecno-moralistas fugindo sistemáticamente a fazer frente ao problema essencial do equilíbrio planetário que só é possível e resolúvel quando o equilíbrio social e a distribuição dos recursos do planeta for equitativa e justa.
É, quanto a mim, significativo que sejam sistemáticamente os paízes mais desenvolvidos, e que mais contribuem para os grandes desequilíbrios ecológicos, aqueles que mais teorias produzem para reequilibrar a relação do homem com a natureza e que mais consciência exibem das causas, mecânicas, desse desequilíbrio.
É também significativo que o conjunto de causas identificadas seja, quase sempre, de natureza técnico-económica e, raramente analizado como as consequências lógicas, e inevitáveis, de deformações ideológicas e perversões políticas.
A noção de que, através de uma posição técnicamente esclarecida, no que diz respeito aos meios utilizados para obter construções e ambientes urbanos ecológicamente correctos, se chega paulatinamente, ou se contribui decisivamente para um futuro mais promissor para a humanidade, é, no mínimo de uma ingenuidade, quanto a mim, inaceitável.
É, ainda que o não queira ser, um mito conveniente ou uma nova forma de tecnocracia, talvez ainda mais perigosa porque fundamentada em motivações correctas e conduzindo a soluções técnicamente defensáveis.
Toda a literatura sobre uma urbanística ou uma arquitectura válida, justa e ecológicamente sustentável equaciona, correctamente, mas incompletamente, o problema global como uma sinergia negativa dos seguintes aspectos da crise ambiental:
- a diminuição das reservas de água potável no planeta, que começa a consumir mais água do que a capacidade de renovamento dos aquíferos;
- a erosão dos solos, com a perda anual de muitos milhões de toneladas de solos férteis causadas pela expansão das áreas agricultadas, por más práticas agricolas e pelas consequências da expansão industrial;
- o abate da floresta tropical, essencial ao controle do clima e à sobrevivência da vida animal, com a perda, só na última década, de mais de 8% das florestas do planeta que haviam já sido reduzidas em cerca de 200 milhões de hectares, só na década de 80-90 (de 1.900 milhões para 1.700 milhões). Esta dinâmica acelerou na década seguinte e o problema vai-se agravando.
- as instalações de energia nuclear, que são neste momento cerca de 430 no mundo todo, com um custo de cerca de $900 milhões por unidade e que custarão, só na Grã Bretanha cerca de 16 biliões de Libras para desativar 54 unidades, até 2060.
As estações nucleares produzem mais de 10.000 toneladas de resíduos contaminados, por ano, para os quais não há, ainda, qualquer solução definitiva ou adequada.
Para lá desse, talvez insolúvel problema, o plutónio continua a ser produzido ilegalmente, e a constituir um grave risco nas mãos de potenciais forças terroristas. Entretanto, a armazenagem de materiais nucleares, potencialmente para uso bélico, continua enquanto que alguns governos continuam a advogar a construção de novas centrais nucleares.
Como aspecto, quase de humor negro, vale a pena mencionar que a minúscula produção de resíduo nuclear que resultou das experiências pioneiras do cientista Enrico Fermi ainda não tem um local seguro de armazenagem!
- o aquecimento global - como resultado do efeito de estufa, produto do aumento exponencial das emissões de CO2. Os cientistas preveem um aumento da temperatura global da ordem dos 3,5º Celsius até 2100. As consequências desse fenómeno serão catastróficas no que diz respeito às mudanças de clima, subida do nível médio das águas do mar, com resultados diretos no abaixamento da capacidade de produção de alimentos, aumento radical da fome nas zonas desérticas cujas reservas de água desapareceram totalmente, aumento da frequência das cheias, secas, ciclones e ondas de marés.
- finalmente, e com a mesma gravidade, o fenómeno do aumento da população. Com cerca de 6 biliões de pessoas o planeta cresce a um ritmo anual de cerca de 90 milhões prevendo-se uma expansão para o dobro da população atual, isto é, para cerca de 12 biliões até ao ano 2050, o que corresponde a um aumento populacional correspondente a 3 vezes a população atual da África.
Neste cenário, até agora irreversível, as necessidades em água, comida, terra e recursos naturais são tão extraordinárias que é previsível e lógico supor-se que irão dar origem, inevitavelmente, a tremendos fenómenos de extinção maciça da população.
Esta lista de manifestações objectivas da crise ambiental, instalada e real, do nosso planeta pode ser vista como um conjunto de causas, talvez inevitáveis, dos problemas atuais e futuros da sociedade humana e cujas consequências podem ser previstas e suscitar tentativas de resolução ou, com mais visão e inteligência, como a consequência direta das formas irracionais e depredadoras do habitat e da maneira de viver da sociedade humana, sobretudo do estrato que mais demandas faz aos recursos e ao ambiente natural.
É interessante que, em quase todos os trabalhos de análise científica da crise ambiental global, raramente se consideram os aspectos ideológicos e políticos, que são responsáveis pelas formas mais profundas dos desequilíbrios sociais, pelas diferenças nas oportunidades de sobrevivência, pelo culto do consumo e do desperdício, pelo domínio económico e imperialista das riquezas e recursos naturais do planeta por parte das nações mais desenvolvidas, pela falsa noção da globalidade económica ao serviço daquela nova doutrina imperialista, pela inequídade da divisão internacional do trabalho, pela obstrução sistemática da participação política e da democracia que, essa sim, deveria estar já num processo irreversível de globalização.
Este é o pano de fundo sobre o qual devemos construir uma atitude profissional, uma didática e as razões de ser da temática da investigação.
A construção do habitat humano é, ou tornou-se, numa das atividades que mais agressões faz ao equilíbrio ecológico local e global.
O arquiteto e o urbanista são, no sentido em que determinam como construir, solidariamente responsáveis, com a sociedade que os emprega, pela maneira como contribuem para, ou como evitam, essas agressões.
Nesse sentido a sua formação deve conter todos os elementos que lhe permitam adquirir uma consciência científica e técnica, cada vez mais esclarecida, dos problemas e das soluções que assegurem o mais alto grau de sustentabilidade ambiental a cada edifício, ou em cada situação urbana.
Cada contexto geográfico e sociocultural tem características próprias. O seu conhecimento, e o conhecimento da sua evolução, devem ser objecto de uma investigação contínua.
No nosso contexto quer os sistemas de educação pela família ou pela sociedade, quer o sistema de educação formal, a nível de qualquer dos seus subsistemas, estão mal preparados, ou são inadequados à formação de mentalidades filosófica e tecnicamente preparadas para fazer face, nos seus campos de ação, aos problemas anteriormente referidos.
Temos, assim, por um lado uma sociedade em geral maioritariamente inconsciente dos factores e das consequências da crise ambiental e, por outro, uma classe técnica mal preparada e alheada, forçadamente alienada ou mesmo impedida de tomar aquela crise como o factor determinante da sua atuação.
No caso da nossa atividade - a de projetistas dos espaços habitáveis, a todas as escalas - o problema tem várias origens ou causas:
1. a formação esteticista que propõe como valor prioritário, na produção criativa do estudante, a obtenção de resultados estéticos baseados numa pobre interpretação dos modelos históricos ou nas modas mais correntes, sem a necessária análise da sua justificação económica, tecnológica, ecológica ou social;
2. a proposição de disciplinas técnicas, incompletas no seu âmbito e conteúdo, separadas do exercício do projeto e ministradas sem uma lógica integradora;
3. o exercício do projeto através de temas irrelevantes, conduzido e avaliado sem que o estudante seja levado a equacionar e resolver os problemas de ordem ambiental e de sustentabilidade ecológica;
4. a ausência, nos curricula, de uma disciplina, de carácter filosófico, que estimule os estudantes a refletir sobre a relevância da sua atuação como futuros profissionais e que lhes forneça os instrumentos culturais que os leve a uma reflexão contínua sobre as dimensões mais transcendentes da sua função social;
5. finalmente, e com relevância muito particular para o nosso caso de país dos mais pobres e socialmente atrasados do mundo, um insuficiente conhecimento, e portanto uma insuficiente inserção, na realidade física e cultural do país;
A regra universitária impede-nos de funcionar com a liberdade necessária ao constante ajustamento dos conteúdos e dos métodos de ensino.
A exiguidade dos fundos disponíveis impede-nos a mobilidade e a experimentação indispensáveis ao melhor conhecimento das situações no terreno e das soluções possíveis.
O isolamento e a reduzida experiência do nosso corpo docente, muito jovem e limitado no espectro da sua experiência, torna-o ainda inseguro, por vezes defensivo, por vezes arrogante, muitas vezes pouco preparado para propor aos estudantes uma visão complexa, e completa, dos problemas.
A limitadíssima disponibilidade de informação difusa, bibliográfica, documental e mesmo de experiência pessoal, é um dos factores mais limitantes da formação, escolar e profissional, dos nossos arquitetos.
E no entanto, pouco a pouco, vamos construindo uma cultura do espaço e da forma arquitectónica, da sua relevância, das suas limitações, dos seus valores, dos seus sucessos e das suas falhas.
O seminário, ou curso compacto que hoje, aqui, abrimos vai ao encontro, ou desejamos que vá, das preocupações que referimos no início.
Por isso pensamos que será indiscutivelmente relevante.
Dois pedidos ou, se quiserem, recomendações, quero deixar aqui aos colegas que nos vêm dar o benefício do seu saber e experiência:

- que saibam evitar as tendências tecnocráticas que estes temas muitas vezes suscitam
e
- que percebam e integrem as dimensões físicas, sociais, económicas e culturais da nossa realidade no dimensionamento das aplicações e dos exemplos a usar na sua didática.
Finalmente agradeço ao CICUPE, à Cooperação Italiana e aos nossos colegas, das diversas partes do mundo, a sua disponibilidade e interesse e desejo a todos o maior sucesso e satisfação intelectual, ao longo deste curso.

JOSÉ FORJAZ

2003