AULA INAUGURAL DA EAUM, ANO LECTIVO 2010/11

Aula inaugural da Escola de Arquitectura da Universidade do Minho, Ano lectivo 2010-2011,

José Forjaz, Guimarães, 27 de Outubro 2010



Perguntei-me, quando me convidaram para esta conversa, o que dizer, a quem o vou dizer e como vou dizê-lo ?
Tive, algumas vezes, que fazer conversas semelhantes quando dava as boas vindas aos estudantes da faculdade que dirigi durante muitos anos.
Ali, falava como director e académico.
Hoje, aqui, e como profissional, tentarei dizer algo que contribua para estimular o vosso interesse e o vosso sentido de responsabilidade no exercício da vossa futura profissão de arquitectos.
Proponho-me expor algumas ideias, e muitas dúvidas que se me têm revelado como importantes neste percurso de cinquenta e mais anos de trabalho, pois alguma coisa poderei ter eu aprendido e algumas certezas poderei ter eu enraizado.
Não é, porém, exactamente assim.
Certezas cada vez as tenho menos e o que aprendi melhor foi que o que sei não é sequer comparável com o que deveria ter aprendido, donde posso concluir que cada novo projecto é um novo desafio, uma nova incerteza, um pretexto para novas descobertas e uma prova do pouco que sei.
Penso que assim é porque fazer arquitectura não decorre, exclusivamente, de processos ou métodos lógicos, científicos e técnicos, cujo conhecimento vamos, progressivamente, acumulando.
Fazer arquitectura é, essencialmente, um processo emocional.
É certo que não se pode fazê-la sem aqueles processos e métodos científicos e técnicos, que são indispensáveis, mas não suficientes.
A análise exaustiva dos elementos e dos factores quantificáveis de um projecto, da sua relevância social e do seu significado para quem o promove e para quem o “experiencia”, a aferição da sua escala e do seu valor de presença na cidade ou na paisagem, o seu impacto ambiental, os limites económicos da sua realização e operação e a sua durabilidade, são dimensões que se devem, obrigatoriamente investigar como bases indispensáveis a qualquer criação arquitectónica.
Contudo essa análise não dá, por si só, a essência do projecto, que é a questão que interessa, aqui, tentar esclarecer
Será possível generalizar, encontrar regras, pontificar sobre a matéria e os processos da invenção?
Será a invenção uma qualidade essencial ao projecto?
Serão a novidade, a diversidade, ou a diferença, os objectivos mais respeitáveis e mais nobres de um projecto?
Será que um projecto com essas qualidades é, necessariamente, um bom projecto?
Quando os arquitectos reclamam para si as mesmas liberdades que assistem aos pintores ou aos poetas, será porque alguém lhas retirou?
De que liberdades estamos a falar?
A de produzir objectos mais ou menos habitáveis?
A de fazer a sociedade pagar o custo de especulações formais, vazias de sentido económico e social e irresponsáveis em termos ambientais?
A de adoptar a moda das bolhas, dos inclinados ou contorcidos, para não parecer falho de imaginação?
A de inventar falsas justificações ambientais para justificar especulações e encontrar pretextos para outras irresponsabilidades formais?
A minha perspectiva é diferente.
Lá, no terceiro mundo onde vivemos, ainda se justifica pensarmos que o melhor arquitecto e o melhor engenheiro são aqueles que conseguem mais espaço com menos gastos.
Ainda pensamos, ou deveríamos pensar, que não é o cliente quem manda, mas a nossa consciência social, os limites éticos da nossa profissão e a coragem de acreditar que só dentro desses limites se podem, e se devem, encontrar as potencialidades expressivas da nossa capacidade criativa.
Repito, se me permitem: só dentro desses limites procuro encontrar, eu, o combustível e a matéria da invenção.
Peço-vos, agora, um pouco mais de paciência para esta apaixonada confissão, que não tem nada de moralista mas sim, e tudo, de ideológico.
Explico-me: as sociedades de que fazemos parte são, ou parecem ser, cada vez, mais homogéneas nos seus valores e ambições pessoais, nas suas formas de viver e de pensar e no progressivo afastamento à realidade natural e às trágicas realidades sociais, cada vez mais longínquas, pois que através da realidade virtual são mais fáceis de assumir como verdade sem um real envolvimento pessoal.
Não posso explorar aqui as consequências deste fenómeno global mas julgo importante trazê-lo a esta conversa.
É importante na medida em que essa homogeneidade é ilusória.
De facto, e mesmo com todas as nobres intenções do Millennium Development Goals o desequilíbrio entre ricos e pobres continua a crescer, e a crescer sobretudo nas cidades, que são onde trabalham os arquitectos.
Que tem isto a ver com arquitectura e que relevância poderá isto ter para esta discussão, uma vez que se trata da ordem politica dos problemas, e não será a arquitectura que a irá mudar?
Esta é a dimensão ética dos problema e ela impõe-nos algumas considerações fundamentais.
Vivemos num mundo onde os recursos naturais são finitos e onde a sustentabilidade da vida no planeta se baseia na interdependência de ecossistemas globais.
Vivemos num mundo onde aquisições éticas duramente conquistadas, como a Carta Universal dos Direitos Humanos, obrigam ao reconhecimento do direito a condições de vida aceitáveis, e que são possíveis para todos os quase sete biliões de pessoas no planeta.
Estamos, pela primeira vez na história, na situação privilegiada de conhecermos os nossos limites e termos a consciência generalizada dos nossos direitos.
Temos acesso a todas as riquezas do planeta e sabemos calcular os custos sociais e ambientais da sua exploração e do seu uso.
Aprendemos o cálculo estatístico e conhecemos os impactos, negativos e positivos, das nossas opções tecnológicas e artísticas.
Não podemos continuar a esconder-nos atrás da ignorância ou da tecnocracia, sejam elas praticadas pelos nossos clientes ou por nós próprios, para justificar divagações formais vagamente poéticas.
Mas não vim aqui para vos falar de forma.
Forma é a satisfação de um conteúdo, e atinge-se através de processos e de métodos, e é desses que me interessa falar
Exploremos, então, o conteúdo de conteúdo.
Referi já a dimensão do conteúdo social da arquitectura.
Referi, sem aprofundar, o conteúdo ambiental da actividade projectual.
Aludi ao meio urbano e ao meio rural, dimensões que ultrapassam o meramente contextual para assumirem valores determinantes quer em termos ambientais quer em termos da inter-relação e do comportamento dos edifícios nessas duas situações.
Mencionei o factor económico como um conteúdo condicionante, e um dos mais importantes, da concepção arquitectónica.

Penso ter ficado implícita, no que referi, a relevância dos aspectos culturais do meio para o qual projectamos e de que essa relevância não é uma dimensão abstracta do nosso trabalho.
Mede-se, objectivamente, pelo comportamento dos edifícios que desenhamos, pelo desempenho das obras que dirigimos e pelos efeitos que elas produzem no meio em que se inserem.
Quais são, então, esses efeitos e esses comportamentos e que impactos têm eles nas pessoas, na sociedade e no ambiente ?
Há 40.000 anos que o homem desenha nas paredes.
Que se exprime pela arte.
São 1.600 gerações de humanos que acrescentaram experiencia e sabedoria aquela forma de expressão.
A arqueologia e a antropologia não nos disseram ainda, com segurança, quando se definiu a figura do artista como um membro especializado da sociedade.
Podemos afirmar, no entanto, que o arquitecto e o construtor foram, desde sempre, entre os primeiros responsáveis pela qualidade da vida humana no planeta.
O abrigo dos homens foi, desde sempre, uma condição de sobrevivência e a qualidade desse abrigo um factor de longevidade e de estabilidade psicológica.
Há 3 gerações, Frank Lloyd Wright, afirmou que “uma casa é mais um lar se for uma obra de arte”: “ a house is more an home by being a work of art”
Disse-o no principio do século passado, exprimindo a indissociável relação entre o conteúdo técnico – a casa, o conteúdo familiar - o lar, e a qualidade estética - a obra de arte.
Há dois mil anos, e passaram 80 gerações, Vitruvius concentrou na trilogia: : utilitas, firmitas, venustas - a essência dos princípios da arquitectura relacionando-os com o contexto natural, social, técnico e cultural.
Há mais de 150 gerações, 1780 anos antes da nossa era, na Suméria, Hamurabi redigiu um código que responsabilizava legalmente os construtores pela segurança e qualidade da obra que construíam. Não pela sua forma.
As razões da forma em arquitectura foram, desde sempre, encontradas fora dela própria e fundamentadas em três grandes vectores fundamentais: a sua necessidade e as condições tecnológicas e económicas da sua produção.
A necessidade é a expressão das condições sociais e culturais do cliente, individual ou colectivo, institucional ou religioso.
Essas condições são, muitas vezes, contraditórias e o arquitecto não pode negar-se a tomar posição quando os interesses privados que representa colidem com os interesses da comunidade, ou da preservação da qualidade ambiental e da sustentabilidade.
A tecnologia é o conjunto das ferramentas de que o arquitecto dispõe para, da maneira mais eficiente, utilizar os materiais e projectar, com respeito pelo ambiente.
O arquitecto não deve utilizar as ferramentas tecnológicas aquém, ou para lá, desses limites e deve procurar, sempre, melhorar o seu uso e criar novas ferramentas.
A economia é uma dimensão ambígua pois há a considerar a economia social e a economia pessoal, a economia ambiental, a economia de meios e, mesmo, a economia formal.
A economia só pode ser medida em termos relativos, e sempre em função de todas aquelas dimensões.
A obra, seja de que natureza for, responde a todas estas razões, mas pode responder bem ou responder mal.
A qualidade dessa resposta pode, e deve, ser medida em termos objectivos, mas esses termos são insuficientes pois a qualidade da obra de arte, que a obra arquitectónica deve ser, é função, também, de factores subjectivos que reflectem a personalidade emotiva e criativa do arquitecto.
Os parâmetros tradicionais de aferição da qualidade arquitectónica estão, agora, em fase de profunda revisão.
Essa revisão tem sido promovida, artificiosamente, pela comercialização das formas de comunicação que necessitam criar, e consumir, imagens e heróis, em todos os sectores da vida das sociedades contemporâneas, e á qual se submetem, irresponsavelmente, organizações de produção de projectos, que impõem, pelo mesmo mecanismo sinistro de manipulação da opinião publica, as mais irracionais respostas que a sociedade de consumo, que os criou e que os sustenta, exige, numa tendência continua de destruição do equilíbrio ambiental e de exclusão social, que lhes são as consequências inevitáveis.
Entre uma sociedade cada vez mais definida pela sua determinante hedonística e a grande maioria da população mundial que não tem acesso ao mínimo necessário à sobrevivência, 90% da literatura arquitectónica técnica e teórica, publicada todos os dias e em todo o mundo, dedica 90% da sua atenção a realizações irrelevantes sob o ponto de vista social, criminosas sob o ponto de vista económico e ambiental e vazias de sentido sob o ponto de vista tecnológico.
Vivemos uma fase de profunda perversão de valores, onde atingimos, sistematicamente, os níveis mais baixos de ética profissional e onde o cinismo das figuras mediáticas engana e amedronta estudantes e profissionais que não se dão conta, pois que a própria sociedade que os sustenta assim os condiciona, da profunda mistificação que se montou à volta de míticos valores estéticos sem conteúdo social, económico, ambiental ou tecnológico.
Mais grave é a crise quando, simultaneamente, nunca foi tão grande o potencial de expressividade formal e de congruência estética com os factores de sustentabilidade, nem tão grande o domínio tecnológico da ciência da construção.
Da nossa longínqua perspectiva o estudo de um desenho de pormenor de muitos dos projectos de edifícios, publicados todos os dias em revistas e manuais do mundo desenvolvido, revela valores de verdadeira incredulidade tecnocrática.
O diferencial de qualidade ambiental, de prestação energética, de sustentabilidade potencial, de níveis de conforto e de qualidade espacial desses edifícios comparativamente à produção arquitectónica de meios menos tecnologicamente sofisticados, é tão ínfimo e subtil que nos perguntamos se, legitimamente, se justificam os espantosos diferenciais de custo e desperdício que tais manipulações representam.
Caricaturando: seria interessante uma comparação tecnológica e ambiental entre o Panteão de Roma, construído há 2.000 anos com três materiais – tijolo, betão e pedra e a mais moderna igreja romana ... que não vai certamente durar 2.000 anos ...
O Panteão continua a servir a sua função religiosa, com um mínimo de manutenção e sem necessidade de complexos sistemas de conforto ambiental e é usado, todos os dias do ano, por milhares de pessoas.
A nova igreja romana, de autor mundialmente conhecido, é um catálogo de tecnologias, tão sofisticadas que o próprio Vaticano teve de intervir para exigir simplificações tecnológicas, e não é sustentável sem uma constante manutenção estrutural e dos seus complexos sistemas de conforto ambiental.
Mas o parâmetro mais desprezado pelos cultores das novas modas formais é o da quantidade de espaço coberto atribuído às necessidades funcionais e sociais mais correntes e universais.
Não falando já das realizações supérfluas ou francamente inúteis que se vão acumulando para fins obscuros ou meramente lúdicos, o que mais me choca são os standards de desperdiço de espaço coberto a que se dão ao luxo as sociedades dos chamados países desenvolvidos.
A irracionalidade das realizações espalhafatosas e grotescas das grandes corporações, as fortunas gastas pelos países em eventos de promoção e demonstração da sua capacidade de desperdício e que em nada contribuem para a qualidade generalizada de vida das pessoas; a comercialização e elevação a nível quase religioso do “desporto”, que pervertem os verdadeiros valores da prática da actividade física, e nas infra-estruturas das quais se investe mais que na promoção do actividade desportiva, são aquisições contra as quais parece urgente uma profunda revisão do sistema de valores da sociedade contemporânea.
Quando, numa tribuna de imprensa para comentar jogos de cricket, em Londres, se investe mais do que na construção de um hospital distrital em Moçambique ou, no edifício sede para o Banco Mundial, se investe mais do que o estado moçambicano dispõe para administrar anualmente 21 milhões de pessoas, algo deve estar errado no nosso sistema de valores.
De facto o terceiro mundo não parece ser mais o terceiro mas sim o ultimo, o outro mundo, aquele para o qual não queremos ir, a não ser como turistas e comerciantes, e dele sair o mais depressa possível.
Ele é, contudo, cada vez mais, o mundo dos que são mais ... e o mundo dos arquitectos que o queiram assumir.
O mundo que se alastra, inexoravelmente, a todo o mundo, como a subida do nível do mar.
O mundo onde os arquitectos podem, se quiserem, fazer as diferenças que se medem em pequenas decisões e nas grandes opções.
Essa diferença impõe uma atenção constante ao canto da sereia que nos leva directamente, se a ele não resistimos, ao naufrágio da forma nos escolhos da facilidade, do agrado popular, da moda e da gratificação pecuniária.
São esses escolhos, por menos perigosos que possam parecer, que pervertem o percurso ético dos profissionais e de muitos dos mais distinguidos “artistas” da nossa profissão.
Não podemos, portanto, alhearmo-nos da tensão entre razões sociais e soluções formais.
Não podemos alegar inocência ou poéticas de cordel, para justificar atitudes de falsa candura e de ignorância criminosa – e todos somos responsáveis pela própria ignorância – das condições éticas e técnicas da nossa actividade.
Não podemos refugiar-nos nas nossas torres de marfim – até porque de marfim não se devem fazer torres – e na nossa condição de artistas, como justificação do desperdício de recursos naturais e financeiros e gratificação das nossas auto satisfeitas e auto referenciadas “criações” formais.
Há portanto que criar um outro mundo.
A compreensão desse novo mundo não é fácil e imediata para uma classe de profissionais demarcada pela sua estratificação social e servidora dos interesses desse mesmo estrato.
Talvez mais do que em qualquer outra profissão, a dos arquitectos está ao serviço da especulação, da representação do poder ou de interesses privados, que, cada vez menos, resolvem, nos seus conteúdos e condições, o que lhes cabe dos problemas fundamentais da sociedade humana, na sua dimensão mais universal.
Este mercenarismo corporativo, cada vez menos sustentado por razões éticas e técnicas, atinge expressões de dimensão épica quando se perdem de vista os objectivos essenciais da nossa arte e profissão.
Como exemplo transcrevo a descrição de uma tecnologia recentemente criada para “ilustração” das fachadas, a pretexto da reinserção do elemento natural na arquitectura urbana:
“A BioWall usa um meio de crescimento hidropónico, fisicamente estável e quimicamente inerte, com uma grande capacidade de armazenamento de água, que é fornecida ás plantas através de um sistema de controlo remoto computorizado com a entrega de uma quantidade exacta de água, da sua retenção e remoção. Os nutrientes são adicionados automaticamente nas quantidades exactamente necessárias para suprir ás necessidades das plantas, enquanto que o excesso de água é drenado independentemente, isto é, não atingindo o painel inferior e evitando, assim, um excesso de água (e um excesso de sais minerais) nas secções mais baixas da parede, o que, de outra forma, causaria muitos problemas ás paredes verdes.” ... e, mais adiante, ... “Um programa de controle biológico completo é estudado para cada parede para se minimizarem os problemas de controle de parasitas, pestes e doenças, com a eliminação das plantas mais susceptíveis.”......
Da revista alemã DETAIL de Setembro/Outubro 2010
.... que, coitadas não devem querer dormir em pé.... e só lhes falta reproduzir as estações do ano.
Para lá da artificial verticalização de um elemento natural normalmente horizontal, o que me espanta, e me extasia, é o condicionamento inescapável de um ecossistema fechado a processos tecnológicos dependentes de uma continua monitorização informática, ela própria dependente de uma continua fonte de energia, e de rega e fornecimento de fertilizantes e pesticidas artificiais, também, necessariamente, automatizados.
Num momento histórico em começamos, finalmente, a pôr em causa os relvados como cobre solos obrigatório para as nossas criações arquitectónicas e paisagísticas, a criação de tecnologias de fabricação e manutenção de ecossistemas artificiais para decoração da obra arquitectónica parece, no mínimo, insustentável quando não ridícula, mesmo quando para tal prática se invocam argumentos, falaciosos, de sustentabilidade ambiental.
Se, com os mesmos olhos cândidos e críticos, analisarmos um vasto sector do desenvolvimento tecnológico dos últimos 20 a 30 anos, encontramos inúmeros exemplos de tecnologias criadas, exclusivamente, para resolver problemas que um melhor ordenamento urbano e das realizações estruturais e arquitectónicas teriam, à partida, resolvido.
Estamos reféns de uma atitude tecnocrática ao serviço de interesses comerciais que se vão impondo a todo o mundo como indispensáveis dimensões da qualidade construtiva, quando não, mesmo, propostos como necessários à validação ambiental das construções.
A sustentabilidade e a qualidade ambiental das nossas obras está longe, ainda, de ser, sistematicamente, avaliada e equacionada em termos de custo - beneficio e, sobretudo, em termos da sua expressão estética.
A rentabilidade económica de um edifico, por exemplo, é, geralmente, mais dependente da sua performance espacial, e da qualidade habitável do espaço do que, directamente, da sua performance energética. Por outras palavras: o desempenho dos trabalhadores é mais rentável num ambiente de trabalho com melhores qualidades de conforto e de interacção social do que as poupanças energéticas que se conseguem através do investimento em sofisticados sistemas de controlo ambiental e de economia energética.
Esta constatação é, contudo, perigosa pois nada obsta a que uma óptima performance energética e uma excelente qualidade espacial e estética possam, e devam, ser simultaneamente conseguidas, com a qualidade espacial necessária ao equilíbrio psicológico dos seus utilizadores.
Fica-nos, então, a questão sacramental:
Como vamos nós produzir arquitetura e, se possível, boa arquitectura?
Não sendo a arquitectura culinária, não se conhecem receitas infalíveis e passadas de geração em geração que nos assegurem repetidos sucessos.
Pelo contrário, e embora a arquitectura continue a ter de satisfazer necessidades universais e, em muitos aspectos, intemporais, as condições da sua prática mudaram muito.
Mudou a sociedade que dela necessita e mudou a forma de construir, mudaram os materiais de construção e mudaram as condições ambientais, mudaram os paradigmas estéticos e mudaram os tempos de execução, mudou o estatuto dos arquitectos.
O projecto deve satisfazer novas condições e dimensões da realidade social que o necessita.
Por um lado deve satisfazer aquilo que não mudou: as dimensões e características físicas e psicológicas da espécie humana e os parâmetros naturais que definem os sistemas ecológicos onde as nossas construções se integram.
Por outro lado deve responder a novas realidades sociais, à evolução das ideias e do contexto cultural, à dinâmica da transformação ambiental e à evolução tecnológica.
Mas o projecto tem que responder, também, a uma terceira dimensão, ainda não mencionada: a nossa própria compulsão criativa, por forma a satisfazer a nossa própria capacidade critica.
O projecto insere-se, na grande generalidade dos casos, em contextos que se revelam ou se definem por pré-existências culturais quer em meio urbano quer em meio natural, não colonizado pelo homem mas que lhe revela a presença e a influência.
Essa presença do tecido cultural reflectido no meio físico onde acontece a arquitectura, é um parâmetro fundamental do contexto material e social do meio para o qual projectamos.
Não sou um cego admirador do passado ou da sua indiscutível sabedoria.
Pelo contrario penso que os nossos antepassados fizeram, como nós fazemos, muita asneira e penso, igualmente que quando fazemos bem, fazemos, muitas vezes, tão bem ou melhor que eles.
Devemos reconhecer, no entanto, que, historicamente, na arquitectura e nas artes da construção os métodos e as práticas profissionais, os tempos de execução e as relações profissionais conduziam a realizações mais amadurecidas e mais ajustadas à realidade sócio económica e cultural, do que conseguem muitas das realizações de hoje.
A aprendizagem prática das artes de construir esteve, até muito recentemente, profundamente integrada com a aprendizagem da arte de projectar.
O arquitecto não só sabia o que construir mas também como construi-lo.
A densidade e a “espessura” dos materiais, as suas qualidades físicas e químicas, a sua origem e os problemas do seu transporte e manipulação, a sua durabilidade e o seu envelhecimento, eram conhecimentos adquiridos no estaleiro da obra e na oficina do artífice.
A distância do arquitecto a essas dimensões é, hoje, muito grande, embora o conhecimento cientifico sobre as qualidades mecânicas e físico - químicas dos materiais seja, hoje, muito mais profundo.
A evolução do estatuto social do arquitecto, a sua formação cada vez mais teórica, e as práticas construtivas e contratuais actuais afastam-no da realidade tangível e sensorial da construção e da arquitectura.
A distanciação cada vez maior ao contexto real pelo reificar das elaborações virtuais e pela promoção da imagem sintética como objectivo imediato e primário do trabalho criativo têm, no seu afastamento aos problemas sociais e às dimensões do mundo natural, consequências gravíssimas que nos obrigam a repensar as condições de produção dos nossos projectos e de materialização das nossas obras.
Esta chamada de atenção, que sou o primeiro a aceitar pois lhe sinto a necessidade permanente, é tanto mais relevante quanto uma quantidade cada vez maior de “produtos” arquitectónicos são, e nem pretendem ser de outro modo, nada mais que especulações virtuais, com uma existência e um consumo exclusivamente literários.
A máquina da divulgação, entretanto, multiplica essas imagens sintéticas e torna-as objectos de desejo e de estatuto social e cultural, pervertendo uma leitura correctamente informada da obra e do projecto que passam, por inversão do processo, a pretender atingir a imitação de si próprias.
Como vamos, então, produzir boa arquitectura?
Como já devem ter percebido essa é a questão a que eu não sei responder.
Primeiro porque não sei se a arquitectura que produzo é boa.
Segundo porque ainda não encontrei resposta que me satisfaça.
Como para qualquer outra actividade criativa, o erro só se evita pela critica e pelo método, que entendo como método infalível a aplicar a cada novo projecto que devo realizar.
Quase que , por reversão do processo, valeria a pena a pergunta oposta; como se pode produzir arquitectura que não seja errada? ... com um encadeamento de processos lógicos com um objecto especifico.
Esse método pode reduzir-se a uma série de passos, não forçosamente sequenciais, mas integradores e incrementais, cujas sinergias alimentam a construção da ideia ou das ideias do projeto.
O primeiro passo tem sido, para mim, a convicção de que não há projectos maiores e projectos menores.
Todas as encomendas são respeitáveis e estimulantes.
Toda a encomenda é um privilégio.
Toda a encomenda é uma oportunidade.
Neste sentido valem-me exemplos emblemáticos que, na sua pequena escala provam que não é a dimensão ou o significado monumental que qualificam ou denotam o potencial de qualidade de uma obra.
Vêm-me à ideia o Tempietto de Bramante, San Carlino alle quatro Fontane, o templo de Afaia em Hegina, ou a Capela dos Pazzi em Florença, o templo de Ise no Japão ou o pavilhão nórdico no parque da Bienal de Veneza, a loja da Olivetti na Piazza San Marco, uma jarra de vidro do Aalto ou uma faca de Tapio Wirkala. Obras de pequena dimensão física e grande valor seminal.
Vêm-me aos sentidos o significativo anonimato dos construtores góticos ou incas, maias ou africanos, os do mzab ou os ndebele, que pela simples inteligência da tradição atingem níveis expressivos e poéticos muito mais poderosos que os resultados dos esforços mediáticos e das ginásticas técnicas e retóricas dos nossos contemporâneos heróis.
Vêm-me ao pensamento milhares de exemplos de arquitecturas espontâneas que encontro em todo o mundo, anonimamente espalhadas e dispostas nas situações mais humildes, descobertas pelo canto do olho, sem direito a página de revista ou ensaio teórico e académico.
Vêm-me à emoção a inteligência da grande engenharia, tão criativa, quanto a arquitectura (... quando esta o é ...) e generalizadamente anónima ao nível do grande público.
Vem-me à consciência a noção de quanto há para descobrir na vastidão da arquitectura anónima, desconhecida e esquecida.
O segundo passo é o estudo da cada situação, de cada inserção, de cada cliente, de cada contexto.
O sitio, o lugar, o significado, o valor, o impacto potencial, a escala e a dimensão, são condições, e parâmetros, que determinam a importância e o valor de presença da obra.
Essas condições e estes parâmetros são quantificáveis e relacionáveis em termos da sua importância relativa e do significado que a obra deve assumir no panorama urbano ou na paisagem e em termos do seu impacto no meio natural e social.
Para podermos considerar esta condicionantes devemos aprender a ler a cidade e o meio natural, a conhecer o meio social e a dominar o meio tecnológico.
Essa leitura e esse conhecimento requerem um interesse enciclopédico por todas as ciências e por todas as artes.
A leitura da paisagem leva-nos é descoberta magnifica das forças naturais e da história do planeta. Desvenda para nós as espantosas lógicas dos processos geológicos e biológicos e das forças que constroem os climas e os continentes.
Os materiais naturais, em bruto ou transformados, contêm o maior potencial expressivo da arquitectura e de garantia da sua sustentabilidade.
O trabalho do homem sobre o palco natural da vida é , em muitos casos, admirável noutros horrendo e brutal. A compreensão das razões e das formas desse trabalho e a leitura informada dos seus resultados é uma disciplina inescapável na formação do arquitecto e no seu trabalho quotidiano.
A leitura da cidade é uma disciplina diversa e complementar. Ela implica uma atitude critica, diferente da leitura do meio natural.
A cidade é um meio de permanente e acelerada transformação, de deformações e de manipulações servindo interesses privados muitas vezes contrários ao interesse comum.
O território é o meio, por excelência, do exercício do poder e, na cidade, esse poder manifesta-se, mais patentemente, em privilégio topológico.
A cidade não é uma crosta, um tapete mágico, uma nave flutuante independente do meio natural. O mais denso dos tecidos urbanos assenta na geografia das bacias hidrográficas, no substrato geológico, na cobertura biológica e é condicionada por factores climáticos.
A inconsciência e a falta de sensibilidade e de compreensão dessa ordem de realidades conduz a desastres e tragédias que se repetem sistemática e inevitavelmente.
O conhecimento do “cliente” e do “programa”, isto é, da dimensão politica do projecto, ou do objectivo social da obra, e o seu “valor de uso”, são razões de estudo obrigatório, sem o aprofundamento das quais o exercício de projectar não é mais que um jogo intelectual centrado na auto gratificação lúdica da manipulação formal.
A análise dos limites económicos do projecto e a investigação sobre as alternativas organizativas, tecnológicas e de custo-beneficio das possíveis soluções, é outra dimensão essencial da compreensão da encomenda e da construção de uma solução arquitectónica.
Mas o projecto tem economias formais a cumprir e a respeitar.
Não falo aqui de outras modas como a de um “minimalismo” estéril, a posar para a fotografia, que é outra pobreza formalista, mal importada de outras disciplinas, e confundida com o verdadeiro ascetismo que é uma atitude intelectual e filosófica, que resulta na valorização do essencial, sem sacrifício do necessário.
Falo da procura do que não é arbitrário, do que é conforme e do que serve e tem razões, do que dispensa os adjectivos e se explica sem retórica.
Falo da intrínseca relação entre a economia de meios e a economia estética, da forma resolvida com o menor gasto material e processual para o mais conseguido desempenho ambiental e social.
Cada vez mais, e por mais isolado que me sinta, me parece altamente discutível a superficialidade e a arrogância a que se permitem os cultores da “deseconomia” de espaço e de materiais, de energia e de tempo para conseguirem uma auto referenciada e arbitrária “novidade” formal que nada acrescenta á qualidade de vida de quem lhes paga os devaneios.
O terceiro passo é, para mim, o de resolver a tensão entre o que aprendi e o que devo “desaprender”.
Explico: a erudição visual e técnica podem ser um fardo pesado demais para nos permitir o retorno ás origens da inocência necessária à invenção.
Esse peso, inevitável pois que a cultura se alimenta de conhecimento, obriga a um contrapeso de emoção que só em pura poesia se pode exprimir.
Mas a poesia é outra difícil missão e, se os paralelos são válidos, as metáforas arquitectónicas não são literárias mas espaciais e abstractas.
Esta desaprendizagem não é um momento, ou uma fase, do processo de maturação, mas uma obcecada forma de procura da sintonia entre a aquisição do conhecimento e a educação dos sentidos.
A gestação de um conceito arquitectónico não se dá por epifania miraculosa, mas sim pela concentração da energia intelectual na procura, informada, da essência poética do projecto.
Essa essência não se cristaliza sem uma longa paciência, que só se consegue com um grande investimento emotivo de que dispõe, somente, quem tem uma paixão irreprimível pela dimensão artística e expressiva da nossa profissão.
Como o pianista que estuda 8 horas por dia ou o atleta que treina as todos os dias as mesmas 8 horas, como a obsessão do pintor ou do escultor, do cientista ou do poeta, essa paixão é também indispensável ao germinar das ideias espaciais e formais, que só acharemos, dentro de nós próprios, através de um paciente processo de interiorização das condições objectivas do problema que temos para resolver.
A experiencia ajuda e facilita a articulação intelectual dessas dimensões, mas traz também perigos e traições quando ilude, ou se substitui, às forças anímicas que a arquitectura deve despertar em quem a inventa e em quem a vive.
Quanto mais ilustramos a memoria e a razão com a acumulação de imagens e conhecimentos, mais longínquo poderá ficar aquele impulso original que nos levou à escolha desta arte que foi sempre a de participar na construção, bela, do abrigo do homem e da sua inserção integradora na paisagem.
Daí falar eu de inocência e de desaprendizagem, dois processos difíceis e quase inconfessáveis.
Sem esse antídoto ficamos limitados à imitação, dos outros ou de nós próprios, e passaremos à condição de seguidores de modas ou maneiras, organizadores de rotinas ou eruditos cultores de uma estéril retórica formal.

Gostaria de poder terminar com algum conselho, alguma regra ou formula, que pudesse orientar-vos com segurança na produção da arquitectura criativa e original que todos aspiramos realizar.
Não o farei, até porque, se o que atrás afirmei é relevante, o que interessa é como se pensa arquitectura e o processo e a clareza dos valores que informam o esse pensamento.

Uma longa experiencia não é necessariamente, e sempre, uma maturação de princípios e uma lenta fermentação de ideias. Pode ser também uma acumulação de vícios.
O factor discriminatório é um permanente, e intransigente exercício de auto critica, refractária ao reconhecimento publico, e a permanente elevação das nossas capacidades intelectuais e de exigência ética.
A única vantagem, que uma longa experiencia pode trazer, é o alargamento dos nossos quadros de referencia, o que permite perspectivar, por terem sido vividas, a passagem das diversas modas e formalismos que, a quem menos amadurecido, podem parecer definitivas.
Desta longa experiencia uma conclusão me permito tirar: só resiste á história o que é universal e intemporal.
Devemos, por isso, procurar na expressão da nossa arquitectura aquelas dimensões que foram, e serão sempre as únicas e essenciais: o espaço, a luz que o revela e o modela e a materialidade das substâncias que o conformam.
Esses são os ingredientes da ideia, que é onde nasce a arquitectura.
Nesta divagação a que vos sujeitei tentei apenas a discutir as bases intelectuais da essência do projecto que é donde nasce a ideia da arquitectura.
Não resisto a ler-vos um pensamento de um dos grandes e verdadeiros mestres do século XX, Eládio Dieste, de pensamento tão grande como a obra e, injustamente tão mal conhecido e apreciado:
“ Uma arquitectura com forte personalidade nunca foi o resultado de se propor a si própria como um fim. Não é fácil ter uma imagem clara do resultado mas sim dos princípios que o devem informar. Por isso é um erro radical o de que “ os fins justificam os meios”. Não sabemos qual é o fim; sabemos aquilo a que ele deve ser fiel. A produtividade e a eficácia não são fins em si mesmos. A plena realização do homem é.”
Penso que, entre académicos, pouco ou nada vim acrescentar ao já sabido, mas, se algum valor alguma experiencia tem, ele deve-se á maneira de como tenho pensado o pensar arquitectura, nem sempre certamente, seguindo à risca a lógica e a disciplina que explorei nesta conversa.
De qualquer maneira tudo o que tentei explorar, em forma mais ou menos lógica e racional, não é mais que uma maneira de ver e de pensar, com certeza altamente discutíveis, e sobre as quais não pretendo ter mais do que uma vaga convicção... pois que em arquitectura há um principio sacrossanto: o que é preciso é fazê-la.

Para terminar ... e sem muita maldade... numa possível e hipotética caracterização das mais recentes tendências da arquitectura contemporânea, citarei a célebre definição, oferecida pelo não menos famoso cozinheiro da grande Catarina da Rússia, onde afirma que “as belas artes são três: a música, a dança e a pastelaria, da qual a arquitectura é um ramo menor...”*

Muito obrigado pela vossa atenção

* Com uma vénia ao meu amigo Tato Dierna

JOSÉ FORJAZ

2010