CONTRIBUIÇÃO À CONFERÊNCIA SOBRE ARQUITECTURA AFRICANA

O que é arquitectura Africana?
Se tentarmos responder a esta, aparentemente, simples questão usando apenas parâmetros quantitativos, chegaremos, inevitavelmente, à conclusão que ela é um universo construído,  maioritariamente, a partir de materiais reciclados, coberto com chapas de zinco enferrujadas, sobre paredes de blocos de betão por revestir ou pintar ou em paredes de pau a pique maticadas,  incrustado em slums de densidades impossíveis, sem água corrente, saneamento, electricidade ou recolha de lixo.
Esta descrição adapta-se a mais que 75% da arquitectura Africana em ambientes urbanos, do Sahel a Cape Town.
Outras caracterizações poderão, porventura, ser construídas que melhor definam outros sectores das sociedades africanas e do seu ambiente construído.
Uma delas é a imagem cosmopolita dos centros de negócios de Joanesburgo ou de Nairobi, com os seus reluzentes arranha céus ou os centros comerciais de Durban ou Harare.
Ainda outra poderá ser o da aldeia tradicional com as suas palhotas de caniço ou paredes de adobe e os tectos planos das regiões áridas,  exprimindo o rápido desaparecimento das maneiras de viver dos camponeses relutantes, ansiosos de partir para a cidade ou, pelo menos, para as sonhadas vantagens da cidade.
Finalmente , e para completar esta caricatura, poderemos considerar outra imagem, aquela que se vende como a “verdadeira” e desejável expressão do espírito da arquitectura africana: o acampamento turístico do safari com as suas coberturas de capim, frequentemente importado,  sobre polidos troncos nodosos, e persianas de palha trançada, preferivelmente fotografadas com a presença de um mordomo vestido de branco, a sua inevitável bandeja de copos cristal tinindo o whisky dos seus cubos  de gelo e balde respectivo.
Esta é a imagem, adquirida e venerada, do “verdadeiro” espírito da arquitectura “tradicional” africana tal como vendida por centenas de agentes turísticos e como  assumida por uma nova elite africana, como ponte para os seus valores ancestrais e, preferivelmente, enriquecida com falso mobiliário barroco, emprestando um toque de realeza ao nosso direito de sermos tão grandes e,  se possível,  mesmo mais importantes e poderosos que os nossos patrões o foram nos tempos  dos regimes coloniais.
Dentro dessas escolhas qual a verdadeira imagem da arquitectura africana a  escolher?
Se expressa pelo numero de pessoas, pela sua  extensão, expansão e velocidade de reprodução, então a primeira imagem é certamente a mais verdadeira.
Se escolhida pela classe dos especuladores como a que melhor convém a uma nova classe de homens de negócios e corporações africanas, então será a segunda escolha a mais acertada.
Se considerada pelo turista ou antropólogo, pelo cientista social ou pelos adoradores das imagens românticas do africano simples, como objecto de pesquisa, a seleccionada será, sem dúvida, a terceira.
Mas, para todos os interessados uma outra, a última, é a sonhada, aquela que ninguém disputa como verdadeiramente representativa do ethos africano.
É a imagem construída, através de todo o mundo, em filmes como”A minha África”,  “A rainha africana” e dúzias de outros, vendida a preços exorbitantes, cada noite a milhares de turistas, muito mais interessados em animais que nas pessoas. Essa é a imagem que adquiriu uma nova nobreza com a suposta resposta á sustentabilidade que aparenta promover.
Vivemos em cidades relutantes, a que poderíamos chamar mega aldeias, e não logramos convencer os nossos políticos e os nossos governos que a mudança da aldeia para a cidade é tão cultural quanto a mudança na geografia da vida das pessoas.
A arquitectura tradicional africana, como qualquer outra, é o produto de processos que reflectem as maneiras de viver e  produzir da comunidade a que serve.
Com as mudanças nessa maneiras de viver e produzir, com novas aquisições culturais e com o acesso a um mais vasto mundo de conhecimentos, tornado possível pelos novos meios de informação; com a aquisição de produtos duráveis e com o romper de laços sociais e da estrutura hierárquica da sociedade rural, a topologia tradicional dos espaços residenciais torna-se cada vez menos adaptável às novas formas de viver e de habitar.
A cidade subsaariana, onde a nova arquitectura africana está em definição, foi criada como o habitat do sistema colonial para responder às maneiras de viver e à organização social da sociedade dos colonos.
A hierarquia social, as necessidades de segurança, a segregação por raça e classe; os valores culturais e as capacidades técnicas; a mobilidade e as novas necessidades de  transportes mecânicos necessitam de diversas categorias de espaço social, de infra-estrutura urbana e de serviços, de performance técnica, de materiais de construção e de limites temporais muito mais estritos para a construção e longevidade dos seus  edifícios.
A arquitectura tradicional africana não responde à nova urbanidade que convém a uma nova sociedade tão diversa, nos seus valores e nas suas necessidades, da sociedade tradicional.
A ruptura com as antigas formas e maneiras de construir foi, historicamente, instantânea.
As necessidades de defesa e culturais, a complexidade de uma sociedade com uma separação clara entre o laico e o religioso, treinado ou analfabeto, rico ou pobre, impuseram uma estrutura urbana estratificada, sem nada em comum com as maneiras da viver tradicionais africanas, mesmo nos casos dos assentamentos rurais mais populosos.
A ruptura com a tradição foi operada com tal brutalidade e falta de reconhecimento das maneiras de viver da sociedade tradicional que só um auto envolvimento, cego e total, a podem explicar e justificar.
Contudo  a curiosidade pelo diferente, ou pelo étnico, esteve sempre presente e tornou-se num tema interessante para os intelectuais, os cientistas sociais  e os artistas á procura de raízes novas, e mais fundas, para a sua produção criativa, que pudessem liga-los à terra africana e à cultura endógena.
Sem o substrato cultural, social e técnico da cultura africana a transposição dos elementos simbólicos, gráficos e plásticos, para uma gramática meramente decorativa tornou-se nada mais que uma moda.
Essa atitude é, mais ainda, agravada quando aproveita à chamada “ affirmative action” para validar a aceitabilidade da mais comercial arquitectura junto aos decisores, eles próprios ansiosos por encontrar raízes para a sua maneira desenraizada de viver. 
Duas ideia nos surgem a partir deste tema:
A primeira é: porque é tão importante a ideia de uma arquitectura africana?
A segunda é: porque deveria sê-lo?
A primeira é mais complexa pois tem a ver com uma fase do desenvolvimento do continente em que a personalidade colectiva do africano é assunto do mais intenso debate filosófico.
Este é um debate emocionalmente amplificado pelas intangíveis consequentes das questões que levanta às novas classes politicas e intelectuais, ainda pouco seguras da sua autoridade intelectual, e que valorizam tanto quanto podem a vantagem comparativa da sua negritude.
O facto é que as politicas da “affirmative action”, como estratégia de preferência na oportunidade e promoção, torna-se muito mais aceitável intelectualmente se for apoiada numa teoria estética de validação das dimensões mais subjectivas do “ubunto” ou outros elementos intangíveis do, pretensamente, generalizável  ethos africano.
Neste sentido a necessidade de uma catálogo de elementos arquitectónicos de dimensão “africana” é explicável, especialmente se ligado à ideia de que essas dimensões são melhor manipulados e compreendidos pelo intelectual ... e pelo arquitecto africano e negro.
Este conceito é, se possível, mais obscuro ainda quando todo o mundo se vai tornando mais uniforme não só nas formas da vida quotidiana, como na economia, nos  meios tecnológicos e nas diversas filosofias religiosas mas, também ainda, quanto aos objectivos comuns de toda a sociedade humana.
Dito isto permanece o problema: há alguma razão para se procurar uma definição de arquitectura africana? E, se há, como deverá então ser ela definida.
A arquitectura é sempre especifica do lugar.
Poderá ela ser especifica de um continente?
Este distinção é de importância fundamental para este discussão.
É de importância fundamental que a África produza arquitectura e que essa arquitectura seja reconhecida e respeitada como uma importante contribuição para o património cultural da humanidade.
A importância dessa contribuição repousa, primariamente, na necessidade dos benefícios objectivos que a boa arquitectura traz             à sociedade e, com não menos  importância, para satisfazer a necessidade de auto respeito a que os arquitectos africanos aspiram, e que devem conseguir pelo reconhecimento internacional da sua qualidade como pensadores no seu campo de acção.
Neste sentido a arquitectura africana tem sido sistematicamente marginalizada como não existente ou como de pouco interesse e remota de mais para merecer atenção.
Estou convencido de que há , em África, uma grande riqueza de trabalho arquitectónico, a todas as escalas de intervenção, que merece muito mais atenção como trabalho seminal e com exemplos inovativos de contribuições criativas para o enriquecimento da nossa profissão.
A outra perspectiva é: uma arquitectura para África.
Que validade pode ter este conceito?
Este é um conceito indispensável para se compreender e discutir.
Como para todos os outros continentes e regiões do mundo, África necessita a sua própria arquitectura, adaptada ao seu clima e às condições físicas do lugar, aos parâmetros económicos, às suas capacidades técnicas e aos ritmos e estilos de vida dos seus povos.
Deve ser uma arquitectura que celebra, dignifica e facilita as actividades humanas a que fornece abrigo; deve ser concebida para o uso máximo dos recursos locais, deve ser económica e bela.
Deve ser o que arquitectura é em qualquer outra parte do mundo. Mas com uma diferença: ela deve servir todos os africanos...como o foi tradicionalmente, ao longo dos séculos. Nessa dimensão é que devemos encontrar a chave para a sua diferença da das outras partes do mundo.
Será isto possível?
A resposta a esta questão pertence á sociedade em geral, às sociedades africanas e aos seus representantes em particular.
Se a arquitectura deve assumir o valor de expressão construída da cultura ela deve, então, exprimir as dimensões mais profundas dessa cultura.
Falamos da arquitectura fascista e revolucionária e pensamos na cidade grega como a expressão do sistema democrático das cidades-estado da bacia do Mediterrâneo; observámos o reprocessamento dos mestres soviéticos para a construção da expressão arquitectónica de uma autocracia brutal que duraria mais que meio século; sonhámos o racionalismo não como um estilo mas como uma forma e como um meio para se conseguir um ambiente equilibrado para uma sociedade mais justa.
A luta dos nossos políticos e dos nossos profissionais, para uma sociedade mais justa e para a construção do seu habitat é a única que poderá estruturar e construir a imagem, nova, de uma verdadeira arquitectura africana.
Como poderemos nós, profissionais, com as ferramentas e dentro dos limites da nossa profissão, contribuir para a construção desta imagem?
Esta é a questão que deverá guiar as nossas escolhas, seja quanto à relevância social do nosso trabalho, quanto ao desempenho técnico das nossas soluções e à qualidade estética da sua expressão.
O problema é que a maioria das escolhas, dentro da nossa profissão, são feitas puramente em função do sucesso comercial que possam trazer ao negocio da produção de projectos baseados em parti pris estéticos ou formais, e não verificadas em função da sua validade quanto às circunstâncias do ambiente social, cultural e natural africanos.
Essas são as fórmulas erradas pois eticamente irresponsáveis e intelectualmente irrelevantes.
Dentro do limitadíssimo tempo que levou, no nosso continente, o processo de urbanização, longe de estar completado ou mesmo estruturado em qualquer forma positiva, poucas oportunidades tem havido para se encontrarem modelos efectivos e operacionais para as nossas cidades, como a única base sólida para uma arquitectura valida e testada.
A cidade subsaariana em todas as suas expressões, e onde quer que tenha sido formada e desenvolvida, não é, ainda, um modelo aceitável para a nova sociedade africana. Nenhuma cidade em África resolveu já as necessidades de um ambiente urbano equilibrado, saudável e seguro, economicamente viável e culturalmente enriquecedor.
Das grandes concentrações urbanas da África ocidental às novas conurbações da África austral não há uma só cidade que possa ser tomada com modelo para a futura cidade africana.
Ao contrario de muitas cidades de média e grande dimensão da Europa e da América do Norte, Central e do Sul, da Ásia e da bacia do Pacifico, que atingiram um alto grau de sucesso como lugares onde a qualidade de vida está minimamente assegurada para todos, a África não apresenta um único exemplo de idêntico sucesso.
Nenhuma cidade, do Cairo a Cape Town, pode afirmar que atingiu já uma qualidade de vida e de serviços urbanos, aceitável, para a maioria da sua população.
O primeiro objectivo da arquitectura africana deveria ser este: o de contribuir decisivamente para a melhoria da vida urbana e da habitação.
Isto deveria ser visto, em primeiro lugar, em termos da solução de problemas de atitude e de segregação espacial e pela rejeição de fórmulas importadas.
A nova cidade africana deve ser desenhada para as dimensões sociais especificas do seu espaço, estruturado a partir de uma nova visão que tome em consideração a importância da produção agrária dentro o seu território, a integração espacial de todas as funções e a redução do interesse e da importância do conceito de CBD, ou centro de negócios trazido, como um dos paradigmas irrelevantes, das cidades europeias ou norte americanas.
   Poderá ser argumentado que, aqui, estamos entrando num campo longínquo já da   arquitectura e  dentro da problemática do planeamento e do desenho urbano, questões essas que são, em última análise, de ordem politica.
Talvez possa isso ser verdade, mas podemos nós conceber a parte sem compreender o todo?

JOSÉ FORJAZ

2007