OS MÉDICOS FOTÓGRAFOS

Diz-se, no mais vernáculo português, que cada doido tem a sua mania…

No caso presente falamos de médicos, não de doidos, e de paixões, não de manias.

Assim, e traduzindo: alguns médicos têm algumas paixões.

Nisso não são diferentes do mais comum dos mortais... mas ter a coragem de expor paixões não é para os fracos de espírito.

Estes são de espírito forte, isto é, acreditam que o que viram, e como o viram, interessa e enriquece quem o vê.

O mistério desta profissão, que sempre me fascinou pela minha dificuldade de a perceber emotivamente, é esta, mais que fortuita apetência pela criatividade artística.

As mais das vezes são escritores e reinventam a vida e a sociedade.

Mas há os que se dedicam às outras expressões, às outras artes, às outras reinvenções.

Porquê?

E, neste caso, porquê a fotografia?

Penso que os médicos, melhor que nós outros, comuns mortais, aprendem a melhor conhecer a semiótica da vida... ou das vidas.

Será porque , melhor que nós outros, eles conhecem melhor essa espantosa máquina de ver, chamada olho?

Alguns anos atrás, e a propósito do trabalho de um magnifico fotografo que publicou um livro sobre a Ilha de Moçambique, escrevi que as suas fotos me tinham ensinado a ver como se vê a Ilha.

Escrevi que, naquelas fotos, eu “vi ver a Ilha”. Curiosamente o editor “corrigiu” a frase e publicou que eu tinha visto “viver a Ilha”.

Entre desagradado e curioso me veio então aquela sensação de que, afinal, ver e viver talvez não sejam sensações, assim, distantes, de que ver sem viver é cegueira da emoção e que viver sem saber ver é analfabetismo dos sentidos.

O que estes doutores da medicina nos trazem nesta exposição é, simplesmente isto: um ensaio, um enfoque, uma descoberta, um espanto, o deleite e o sofrimento da técnica, uma abstração a duas dimensões e a obsessão de saber isolar o momento e dar-lhe o valor universal que, afinal, todos os momentos da vida têm, para quem os sabe ler, ver... e viver como únicos, transientes e intemporais.

Chega?

JOSÉ FORJAZ

2014