PRIMEIRO SEMINÁRIO NACIONAL DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA

A minha intervenção parte de algumas questões que me foram propostas como as mais relevantes para o sentido deste Seminário. São elas:
- qual a situação nacional no campo da ciência e da tecnologia?
- que conhecimentos e tecnologias necessita Moçambique a curto e médio prazos?
- que dimensão política têm a ciência e a tecnologia em Moçambique hoje e qual a dimensão que deverão assumir?
Para melhor definir a minha posição devo começar por tentar traduzir estas questões noutras, suscitadas directamente por aquelas, mas mais fácilmente objectivaveis:
A primeira é a do significado de “nacional”, neste contexto, que, quanto a mim, só tem um sentido histórico-estatístico.
Por outras palavras: o termómetro do desenvolvimento medirá a nossa “temperatura”, científica e técnica através de quantificações simples e objectivas, que se podem exprimir da maneira seguinte:
- que importância têm as disciplinas científicas e técnicas no nosso sistema educacional, a cada nível?
- quantos moçambicanos são abrangidos pela disseminação do conhecimento científico e técnico?
- que importância tem a divulgação científica e técnológica nos nossos meios de comunicação social?
- que importância, oficial e académica, é dada ao conhecimento empírico (mas não menos conhecimento) que caracteriza a cultura cientifica e técnica tradicional?
- que importância é dada à investigação cientifica e ao desenvolvimento tecnológico pelas pessoas e instituições, públicas ou privadas, no nosso país?
- que reconhecimento social se dá, em Moçambique, à figura do cientista, do tecnólogo e do técnico e como se exprime esse reconhecimento?
- qual o volume das publicações científicas e técnicas, originais, que se publicam no País?

Medidas apenas por estes critérios seria provável que depressa se chegasse à conclusão de que a ciência e a técnica têm, em Moçambique, mais ou menos a mesma importância que tem a marinha de guerra na Suíça.
Isto é, pouca.
E no entanto, se quisermos responder com profundidade à segunda questão, isto é, de que conhecimentos e tecnologias necessita Moçambique, a curto e médio prazos, eu diria o contrário. Diria que Moçambique necessita e urgentemente, de reconhecer a importância do conhecimento científico e da sofisticação técnica se quiser, e tem de querer, acompanhar a civilização humana.
De facto, se ultrapassarmos o jogo, vazio e demagógico, do que vem primeiro – o desenvolvimento material que conduz ao desenvolvimento técnico ou o desenvolvimento técnico que provoca o desenvolvimento material – e nos concentrarmos no problema central que é o da cultura, talvez possamos ir mais longe e inferir algumas direcções ou mesmo algumas respostas àquelas, iniciais, questões.
Quando refiro o problema central como sendo o da cultura não me refiro particularmente a Moçambique ou à cultura do povo moçambicano mas sim à cultura actual, que é, queiramos ou não, global, mas não resolve, nem parece estar interessada em resolver, o problema da divisão dos mundos em estratos sociais definidos pelo seu acesso à riqueza e, sobretudo, e no que mais directamente interessa a este Seminário, à educação, que é o único veículo para a solução do problema mais grave do mundo actual que é o da sobrevivência do homem no planeta.
Daí que se deva considerar que o problema de Moçambique no campo da ciência e da técnica não é um problema local, mas um problema global no sentido em que condições materiais e culturais identicas se encontram desde a Ásia à América Latina, passando pela Gronelândia, e são comuns a todos os povos com grandes maiorias descriminadas cultural e materialmente.
Vale a pena, pois, um minuto de reflexão sobre a natureza deste magno problema.
Ninguém duvida que a terra chega, confortávelmente, para todos. Mas também ninguém duvida que alguns, poucos, estão nela muito mais confortávelmente do que a grande maioria.
Por outro lado todos sabemos que uma borboleta ao bater as asas na China poderá provocar um ciclone nas Caraíbas, isto é, que o sistema em que vivemos é um sistema integrado e de que a divisão do mundo em entidades sócio-geográficas, tenham elas o valor político que tiverem, não interessa, a não ser políticamente, à sobrevivência do actual,e, injusto, sistema.
Finalmente, e para estabelecer mais uma base indispensável à construção de uma atitude, importa lembrar que Moçambique é, ele próprio, um microcosmos sócio-cultural que reflecte, cada vez mais perfeitamente, a realidade global, principalmente na estratificacão económica e na cultura material dos seus cidadãos.

Não se trata portanto, aqui, de definir qual a ciência e que tecnologias convêm a Moçambique pois que, pela lógica mais elementar a Moçambique convêm todas e são todas necessárias.
E será que haverá mais do que uma?
É também evidente que não.
A ciência e a tecnologia são uma só e necessárias a todos os povos da mesma maneira.
Quando, por breves momentos, a seguir à independência nacional, Moçambique acreditou nas suas próprias forças, um grupo de universitários, ingénuos e visionários, liderados por um poeta da utopia chamado António Quadros, criou um centro de recolha, estudo e desenvolvimento das “tecnologias básicas do aproveitamento racional da natureza”, a que chamou o TBARN.
Acreditava-se, e pretendia-se provar, que os slogans políticos de “contar com as próprias forças” e de pensar o país “do Rovuma ao Maputo”, poderiam ser a ponte necessária, e indispensável a um desenvolvimento (endógeno) para o qual todo o povo contribuísse e, assim, beneficiasse de um melhor conhecimento dos seus potenciais naturais. Isto seria, então, possível, uma vez que o esforço material e a pressão moral e emocional da guerra de libertação tinham acabado.
O TBARN não era na realidade só um centro de estudos ou um grupo de pessoas interessadas. Era, acima de tudo, uma ideia, uma atitude, utópica talvez, mas social e culturalmente, impecável.
Mais que um centro de investigação tecnológica era, sobretudo, um centro de comunicação de ideias, e de promocão da ideia, nobre, de que pelo pensamento todos nos podemos libertar da condição de servilismo material a que estamos, ou podemos vir a estar, sujeitos.
No TBARN não se fazia a apologia das tecnologias “pobres” ou “doces”, ou “intermédias”. Fazia-se a promoção das tecnologias “racionais”, tendo-se definido como racional o que não destruísse a natureza, fosse realizavel com as capacidades locais e tivesse objectivos claramente percebidos de melhoramento da qualidade de vida das pessoas.
Dois factores principais minaram e destruíram a credibilidade da ideia, da atitude e da organização: por um lado a profunda divisão que, já nessa altura, existia na direcção política do país, embora escondida; por outro lado o cínismo dos nossos aliados, naturais ou não, para quem a visão de um Moçambique a contar com as suas próprias forças, e portanto menos dependente, era repugnante, senão mesmo perigosa.
Isso reflectiu-se nas posições de alguns grupos nacionais, influentes na definição da filosofia dos macro projectos de desenvolvimento, que tanto atrazaram e comprometeram as pequenas iniciativas de desenvolvimento, hoje, felizmente, reconhecidas como essenciais.

O problema da correcta relação da tecnologia com a política, as mais das vezes negativa mas sempre indispensável, só terá solução quando a sociedade em geral atingir um desenvolvimento cultural que lhe permita questionar-se, filosóficamente, sobre o sentido e as formas de utilização da ciência e das técnicas.
Mas quem decide sobre a função da ciência na sociedade não são os cientistas, nem mesmo os cientistas sociais, nem os filósofos.
Quem decide são os políticos que, pelo menos no nosso caso, não têm sido, as mais das vezes, aconselhados por cientistas filosóficamente preparados e tecnólogos experimentados .
Fica, assim, o campo aberto aos mais patentes atropelos à racionalidade no uso dos recursos e á sustentabilidade dos projectos , uma vez que as decisões tomadas, sobre as quais não há uma opinião pública informada, passam a ser determinadas pela sua expediência ou pela sua rentabilidade política e económica a curto prazo, não lhes sendo percebidas as possiveis consequências funestas, a longo prazo.
A única forma de combater a arbitrariedade é o conhecimento e a comunicação.
A experiência do TBARN falhou por causa da sua ideologização e do seu, imposto, isolamento cultural; mas não falhou porque, ainda hoje, pode ser relembrada e inspirar o pensamento dos sectores mais idealistas e, portanto, a longo prazo, mais realistas, do país.
Que lição podemos tirar daquela experiência?
A mais importante é a do método e, nesse aspecto a sua lição é, porventura, em certos aspectos, negativa.
O fracasso do TBARN foi, quanto a mim, precisamente este:
o de ter começado por cima. E foi exactamente no topo, nos donos da ciência e da técnica, que encontrou toda a incompreensão.
A reacção. A compreensão errada.
O julgar-se que era um remédio ou uma técnica, quando do que se tratava era de uma nova forma de pensar que respeitasse a cultura e o saber do camponês e do artesão e as revelasse ao intelectual para que este, com as ferramentas do pensamento científico e da comunicação, as pudesse compreender, sistematizar, integrar, desenvolver e comunicar.
Era, também, uma chamada de atenção para a relevancia dos temas de investigação mais significativos para a grande maioria dos moçambicanos : os camponeses e os pescadores, e os artifices, e os operários, e os pequenos empresários.
Eram os temas da energia e da água, da produção e conservação do alimento, da saude e da higiene, da construção, dos transportes e da comunicação; o tema do respeito pela natureza, pelos recursos naturais e pelo seu, necessário, equilíbrio.
Era o tema da integração da universidade na vida e no quotidiano das pessoas, através da participação directa na solução dos seus problemas.
E neste processo todos aprenderíamos.
Primeiro a respeitarmos a cultura tradicional, não por demagogia ou oportunismo, mas por esclarecida compreensão da sua profundidade empírica e das suas próprias lógicas; depois pelas pessoas e pela sociedade tradicional, não por laços familiares, involuntários, mas com um profundo respeito pelos seus valores éticos e sociais e pela inteligencia da sua relação com a natureza.
Mas a universidade não estava preparada para esta atitude, pelo menos nos campos das ciências exactas e da tecnologia.
Os interlocutores mais interessados e participantes vieram, de facto, do campo das ciências sociais por melhor lhe perceberem a amplitude social e a profundidade cultural.
Daí que o erro foi o de se ter começado por cima, pela universidade, como dito.
A compreensão do valor da ciência e das tecnologias não se adquire no fim do processo educativo e formativo.
A ciência e a tecnologia devem ser compreendidas a partir do primeiro ciclo da formação escolar, como essenciais á cultura, única e indispensável ferramenta para a sobrevivência da sociedade humana.
A cultura contrói-se paulatinamente e através da comunicação que se faz, entre contemporâneos ou através das gerações, por sinais, por testemunhos e pela voz, e necessita, portanto, da escrita, da imagem e da linguagem.
Para construir as bases da cultura nacional temos pois que criar e saber utilizar veículos de transmissão de ideias, efectivos e generalizados.
O sistema mais generalizado de transmissão de ideias e de estimulação cultural é o sistema nacional de educação, e muito particularmente, o sistema de educação primária e secundária.
Mas é, também esse, o sector proporcionalmente mais débil de recursos humanos e de infra estruturas à altura da sua gigantesca tarefa.
Se, de facto, quizermos considerar o potencial científico e técnico nacional temos que, inexorávelmente, começar por considerar os 2,6 milhões de crianças, em idade escolar primária, como o campo mais sensível às acções de formação das novas gerações, culturalmente preparadas com uma atitude científica esclarecida e com a compreensão do valor social da técnica e das consequências ambientais da sua utilização.
Só a partir da escola primária poderemos construir mentalidades que não venham a considerar a universidade como um “martírio” a ultrapassar, citando uma frase do último jornal “O Universitário”, ou como cinco anos “queimados a estudar” como escrevia, à poucas semanas, um ilustre articulista de fundo no jornal “Notícias”.
Não é, penso eu, ao fim de 12 anos de deseducacão primária e secundária que poderemos recuperar, para o exercício e para a alegria do saber, os nossos massacrados, desmotivados para o pensamento, e metódicamente brutalizados, alunos do sistema nacional de educação.
São de facto raros e excepcionais os que, no fim desse processo, ainda nos chegam voltados para a alegria de pensar.
Ambiciosos sim. Chegam-nos quase, senão, todos. Mas ambiciosos para a graduação tão fácil e tão rápida quanto possível, e já agora, para pós graduacões que lhes dêem, mais depressa mais um título, e sobretudo a vantagem material ou política, que parecem ser as motivações que mais os interessam.
Desses temos já demais.
Mas não será com esta massa que construiremos uma intelectualidade culturalmente segura e capaz de perceber a tecnologia como um meio, não como um fim.
Não será fabricando tão depressa quanto possível, pequenos e limitadíssimos técnicos, sem a noção do significado e das implicações da tecnologia, ou tecnocratas, sem a noção ética do valor da ciência, que faremos de Moçambique um país melhor.
Ultrapassada a era do “príncipe”, o que distingue as sociedades modernas, no que elas têm de melhor, é o nível cultural geral e não o nível excepcional de alguns dos seus membros.
De facto o exercício da democracia só é possivel com a plena consciência, pela maioria dos cidadãos, das consequências das suas decisões económicas e sociais.
Essa consciência constrói-se a partir duma atitude de curiosidade e responsabilização intelectual cujo despertar é a mais importante das tarefas da escola, de todas as escolas, a todos os níveis.
Ao professor primário e secundário cabem as maiores das responsabilidades neste processo. Mas será que eles têm consciência disso?
Será que na sua preparação, e na sua remuneração se tem, ou pode ter, isso em conta?
Será que as infraestruturas escolares são as mais adequadas a um ensino criativo e estimulante?
Todos temos a consciência aguda da dificuldade destas respostas mas o avanço de um país mede-se pela qualidade do seu sistema educativo, e o avanço científico e tecnológico são-lhe directamente proporcionais.
Ontem mesmo soubemos, do Senhor Ministro da Educação, o panorama sombrio que, corajosamente, soube traçar do estado da educação primária e secundária no nosso país.
Não dizemos, portanto, aqui, nada de novo, mas não é, por melhor conhecido, que o tema é menos verdadeiro ou menos relevante para este Seminário.
A minha contribuição é, portanto, muito modesta mas penso que, nem por isso, menos relevante.
Resume-se a lembrar, aqui, que, se quisermos desenvolver em profundidade a cultura científica e a capacidade tecnológica de Moçambique, para um futuro mais feliz para todos os moçambicanos, deveremos começar por uma revisão profunda das condições de ensino aos níveis primário e secundário, incluindo a revisão dos curricula, dos métodos de transmissão do conhecimento, da preparação dos professores e das suas condições infraestruturais.
No que diz respeito aos curricula com a introdução de temas e problemas relevantes para a vida quotidiana dos estudantes e das suas famílias, sem o envolvimento das quais a acção da escola se limita e se perde ou se dilui uma oportunidade única de promoção social.
Nessas temáticas deveriam incluir-se a introducão aos princípios científicos das tecnologias de produção dos alimentos, da captação, tratamento e distribuição da água, das diversas formas de energia e da sua utilização e poupança, da construção, da mecânica elementar, da saúde e da higiene, equilíbro ambiental, da organização social e das suas regras éticas e jurídicas, estas como prelúdio à introdução de um módulo de filosofia ao nível secundário.
Como métodos a aprofundar e a desenvolver deveriam introduzir-se a experimentação sistemática, o recurso aos exemplos e problemas da vida corrente e quotidiana dos alunos e das famílias, a participação no ensino dos membros mais experientes da comunidade nos diversos campos tecnológicos, as visitas de estudo aos locais e centros de trabalho e produção e, acima de tudo, o conhecimento e a dignificação do trabalho de cada membro da comunidade e da integração e interdependência de cada pessoa no sistema produtivo.
Em relação às infraestruturas também uma nova atitude conceptual se impõe. Será necessário que a nossa escola reconheça o valor do trabalho manual e participativo como essencial ao conjunto das experiências da criança.
Assim o espaço da escola deverá ser concebido como muito mais vasto do que o definido pelos seus muros e vedações e incluir, conceptualmente, os lugares e os espaços de experiênca em que a comunidade pode, e deve saber integrar as crianças.
A escola deverá ser concebida como um local onde a criança aprende, experimenta, se diverte e percebe o seu lugar na sociedade.
Um lugar destes não é feito de salas alinhadas num corredor, com as crianças arregimentadas em filas militares, abrindo para recreios desérticos e poeirentos onde os intervalos, entre períodos de sofrimento, chamados aulas, são passados a expandir a saudável vitalidade juvenil, reprimida e desaproveitada durante 50 minutos.
A escola deve ser a outra casa da criança.
Não pode ser uma fábrica de passar ou loja de vender exames.
Peço desculpa por ter trazido a este elevado Seminário os problemas da formação científica e técnica a nível tão elementar mas, se o fiz, foi na convicção de que são, muitas vezes, os aspectos mais evidentes dos problemas que são esquecidos, até porque parecem ser, mais naturalmente, do consenso geral.
Fi-lo também porque, tendo-me sido pedida uma reflexão sobre “o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento comunitário”, me senti obrigado a relacionar esse tema com o da análise critica da estratégia cultural nacional para lhe propor uma hipótese alternativa.
De facto num país onde, apesar do enorme sacrifício para os nossos limitados recursos humanos e financeiros, não conseguimos, ainda, uma eficiência aceitável do sistema educativo não me parece muito lógico propor alternativas que irão, necessáriamente, drenar ainda mais essas mesmas limitadas capacidades.
Parece-me mais lógico e racional que seja a escola a realizar o seu papel, essencial, de promoção da ciência e da tecnologia no seio da comunidade, pela integração da família, e dos seus saberes, no processo de aprendizagem contribuindo assim, melhor e de maneira única, para a integração da criança na cultura tradicional que, na escola, aprenderá a respeitar e, assim motivada, a desenvolver.
Penso que a posição atrás manifestada contém, implicita, uma clara posição em relação ao tema de transferência de tecnologia e de ligação entre investigação e extensão, que também me havia sido proposto, pelo que me dispenso de o explorar mais em detalhe.

JOSÉ FORJAZ

2000