SAÚDE E ESPAÇO

Oração de sapiência : Faculdade de Medicina, Universidade Eduardo Mondlane

O homem é de todos os animais superiores o único que controla o ambiente em que vive e que, por isso mesmo, consegue viver em ambientes com grandes diferenças de temperatura, humidade, altitude, pressão atmosférica e intensidade sonora ou luminosa.

De facto o homem habita igualmente o ártico ou os trópicos, o fundo do mar ou o cimo da montanha, o deserto ou a floresta, a tundra ou a savana, a cidade sobrepovoada ou, nos nossos tempos, o espaço interestelar; pode deslocar-se à velocidade do caracol ou a milhares de quilómetros à hora e tem ainda a capacidade extraordinária de desenvolver sempre, e cada a vez mais , os limites da sua performance física.

O homem, portanto, não só tem, e desenvolve, uma capacidade única de adaptação ao meio como consegue, pelo puro exercício da sua inteligência, adaptar o meio às suas condições e aos seus limites físicos e psicológicos.

Nisto o homem é único.

Também único é, o homem, na sua forma de agregação social que vai do eremita no cimo da montanha ou do navegador solitário no meio do mar, ao habitante das grandes metrópoles com milhões de habitantes.

Nesta Faculdade, em que agora alguns entram e de que agora alguns agora saem, aprende-se e ensina-se a natureza e os mecanismos do funcionamento dessa espantosa máquina de viver, e as suas formas de relação fisiológica e psicológica com o meio físico.

Naquela outra faculdade onde eu aprendo, e tento ensinar, estudam-se as técnicas e a arte da adaptação do meio físico ao homem.

A isso chamamos, no seu sentido mais geral, arquitetura.

Como facilmente se pode compreender as nossas são duas disciplinas complementares.

Por isso, e certamente, este imerecido convite para, perante vós, explorar alguns aspectos desta tão clara e indispensável complementaridade, que seguramente, não se limita às nossas duas disciplinas mas se estende indispensavelmente a todas as humanidades e a todas as ciências, que de todas e para todas o homem é o centro e o seu objectivo mais nobre.

Recorrendo, então, a outra das disciplinas da nossa Universidade, que é a da história, gostaria de ler-vos um pequeno trecho do primeiro teórico conhecido da arquitetura, um romano do século primeiro D.C., de seu nome Marcus Vitruvius Polio, que escreveu um famoso tratado chamado " Os Dez Livros da Arquitetura".
Logo no Livro Primeiro, Vitruvius, descrevendo o que deveria ser a educação de um arquiteto e quais as disciplinas indispensáveis a essa educação, escreve:
" o arquiteto deve também ser conhecedor do estudo da medicina tendo em conta as questões do clima, do ar, da salubridade dos lugares e o uso das diversas águas.

Porque sem tais considerações a salubridade de uma habitação não poderá ser assegurada"

Mais adiante, no Livro Sexto, volta Vitruvius a explorar as relações dos edifícios com os elementos naturais dando instruções claras sobre a melhor orientação das diferentes partes de um edifício, para maior beneficio da saúde dos seus habitantes e preservação dos seus haveres.

Da história da medicina sei, para vergonha minha, muito pouco mas não me espantaria se Hipócrates se tivesse alongado sobre as virtudes profiláticas e terapêuticas da correta construção dos edifícios para uso e habitação humana , de acordo com os sãos princípios da correta exposição aos ventos mais favoráveis , ao sol esterilizador e à proteção contra os miasmas e contra os insectos transmissores de doenças.

Através de toda a história da civilização humana o homem tem sabido procurar, e definir, os princípios científicos que o ajudam a estabelecer condições cada vez mais favoráveis ao seu habitat e que contribuam para o alongamento da vida e para o melhoramento das suas qualidades físicas e psicológicas.

Numa ciência de codificação mais recente, mas não menos importante - a da construção das cidades, ou a urbanística -também os princípios da salubridade foram sempre dos primeiros factores considerados por qualquer teórico embora, infelizmente, quantas vezes esquecidos pelas forças mais brutais da exploração e da especulação que tanto contribuem para a miséria de tantos meios urbanas.

Hoje, com a recente descoberta dos limites do nosso planeta, com a rápida evolução das novas ciências do equilíbrio dos sistemas naturais e do com um melhor conhecimento dos perigos da sua sobrexploração, parece haver uma muito mais profunda consciência do equilíbrio das relações do homem com o seu meio natural e das consequências nefastas da rotura desse equilíbrio.

A literatura profissional do arquiteto reflete, agora muito mais sistematicamente, essas preocupações como posso, por exemplo, ilustrar com a transcrição do índice de um dos capítulos de um livro chamado " A casa natural" que consta de:

• A revolução química
• A casa doente
• Poluentes e toxinas íntimas
• O " síndroma do edifício doente"
• Dando resposta aos poluentes
• A casa poluidora

Em culturas e tecnologias não ocidentais também os princípios de organização do espaço são, muitas vezes, definidos a partir de pressupostos que têm a ver com aspectos de salubridade e que são expressos, até com maior clareza, através de tratados e aprendizagens de natureza quase religiosa ou transcendental.

A sagrada ciência do Feng Shui, praticada durante muitos séculos na China, e em todo o universo da sua influência, pelos chamados geomantas e ainda hoje rigorosamente observada por um largo sector da população daquela parte do mundo, tem como base a observação das formas e dos fenómenos naturais para definir exatamente o local e as orientações mais propícias à inserção das estruturas da habitação e da vida social, em perfeito equilíbrio com as forças da natureza e, criar assim, um ambiente de grande equilíbrio com essas mesmas forças.

Do oriente ao ocidente e através da história da humanidade podemos encontrar sempre, como constante esta preocupação pelo estabelecimento sistemático de uma relação íntima entre os aspectos da saúde e da construção.

Com a evolução do racionalismo e das ciências exatas estabeleceram-se métodos e processes de análise dos problemas da arquitetura e da urbanística que nos permitem quantificar os factores que optimizam aquela relação para beneficio do homem.

Neste processo de progresso técnico e tecnológico alguns dados vão evoluindo, outros são mais estáveis e fixos.

A evolução da fisiologia humana é, provavelmente tão lenta quanto a evolução das relações da sua psique com as dimensões espaciais e topológicas o que nos permite estabelecer com alguma segurança os limites da normalidade ou da patologia dessas relações.

Patologias psíquicas como a agorafobia a claustrofobia, o mais corrente medo das alturas ou do escuro são formas de relação com as dimensões espaciais de que o arquiteto, não menos que o psicólogo, ou o psiquiatra, devem conhecer e considerar no seu quotidiano profissional.

A sociedade humana continua a habitar uma delgadíssima película à volta da terra limitada por características e acidentes que lhe restringem, em muito, a superfície adequada à vida.

Durante o brevíssimo período em que o homem se formou e se tornou consciente da sua própria história foi, ele próprio, transformando aquela delgadíssima película e nela acumulando e inscrevendo os resultados do seu trabalho inteligente mas, também, infelizmente, os resultados da sua estupidez, avidez e ignorância.

Os resultados destes poucos milénios de uso e abuso do nosso habitat estão presentes e visíveis à nossa volta e são, simultaneamente, uma fonte do prazer de viver e de muito sofrimento escusado.

A espantosa dignidade da paisagem inteligentemente transformada para a produção agrícola, a majestosa elegância da ponte sobre o grande rio ou sobre o vale profundo, desenhada e construída sem um grama a mais de material necessário, a simplicidade protetora do porto de mar abrigado pelo inabalável quebra mar, a geometria útil da grande linha de energia ou da bem inserida autoestrada, a violência contida da grande parede curva e tensa da barragem, que define novas linhas de horizonte, a estonteante riqueza dessa maior de todas as criações do homem que é a cidade, tudo isto e muito mais só tem infeliz contrapartida na maldade ignorante dos que, sem compreender as forças originais e a fragilidade do nosso meio natural, as subestimam e o forçam, as exploram e o abusam em vez de o usar e o destroem em vez de o respeitar.

A minha Faculdade foi criada exclusivamente para nos ensinarmos uns aos outros a difícil mas indispensável e urgente arte de criar e recriar todos os dias o espaço da vida humana, naquela já referida e delgadíssima película à volta do nosso planeta.

Esta casca tem dimensões que vão do ecossistema à região, desde a paisagem à história, desde a sociedade ao material, desde a manutenção à estética, desde a estatística à poesia.

Essas dimensões todas, e mais outras cuja descoberta dá a medida de cada um de nós, devem todas ser percebidas, aprofundadas e integradas naquela que é a única e exclusiva responsabilidade de uma escola superior para com os seus discípulos: a construção de uma atitude iluminada e responsável do intelectual e do profissional perante a sociedade e a natureza.

Nesta responsabilidade são as nossas duas Faculdades iguais.

Noutros aspectos se aproximam também as responsabilidades e os problemas dos médicos e dos arquitetos.

É, por exemplo, uma verdade conhecida que toda a gente, iniciada ou não nestas nossas artes, sabe sempre muito de medicina e, mais ainda, de arquitetura.

Poderão as pessoas hesitar antes de emitir uma auto esclarecida opinião sobre problemas de engenharia ou de biologia, de física ou de agricultura, de astronomia ou mesmo, e curiosamente, de veterinária, mas das maleitas do próximo ou da forma da sua habitação sabem, em geral, o suficiente para arriscar uma opinião que tem tanto de fundamentada como de mal informada.

Esta comparação é de facto exagerada pais, apesar de tudo, as pessoas arriscam muito mais opiniões acerca de arquitetura do que acerca de medicina.

No entanto o problema, na sua essência subsiste: o médico e o arquiteto devem afrontar, no exercício da sua atividade, convicções profundamente enraizadas no subconsciente e no consciente dos seus clientes, convicções essas que não devem ser menos respeitadas ou tomadas em conta por serem, muitas vezes, não mais do que produtos de formas de divulgação mais ou menos superficial ou das crendices mais obscuras.

Em ambos os casos a nossa obrigação é a de esclarecer, e mesmo educar , os nossos " pacientes" por forma a que os seus hábitos e as suas formas de viver e de habitar contribuam para uma maior plenitude no gozo da sua vida física e de uma mais intensa e rica relação com as dimensões do espaço, da luz, do som, da presença da natureza e dos valores poéticos da arquitetura, do espaço urbano e da paisagem.

Talvez, mesmo, seja esta a dimensão mais nobre das nossas profissões: a de educar para a saúde, no vosso caso, e para uma cultura do uso do espaço, no nosso.

Mas para isso é preciso aprender e para isso nos encontramos aqui e agora, dentro dos muros desta Universidade.

Aprender é difícil, pelo menos tão difícil como ensinar, e, por isso, devo deixar aqui alguns pedidos que são os mesmos que há bem pouco tempo fiz na minha Faculdade, e que vos transcrevo, quase na integra:

primeiro quero pedir aos professores uma compreensão profunda pelas dimensões humanas da vossa atividade didática e uma verdadeira paixão pelos valores éticos e poéticos do exercício da arte de curar;

aos alunos, e muito especialmente aqueles que agora se juntam a nós nesta aventura do espírito, peço que acreditem que vale a pena aprender;

peço que recuperem ou mantenham a inocência da curiosidade e da imaginação, sem a qual todo o processo de aprender se esvazia de significado;

peço que reconheçam que o desinteresse é sempre culpa do desinteressado e que a ignorância é sempre culpa do ignorante;

peço que descubram que tecnologia sem poesia é tecnocracia, que é um dos piores vícios da nossa época;

peço que descubram, pois, que ser poeta é uma obrigação e que a poesia e a única libertação;

peço, mais uma vez, que se esqueçam dos exames e das notas e que aprendam por prazer;

peço, finalmente, que se lembrem de que não há doenças mas doentes, tal como não há habitações sem pessoas que as habitem.

Uma palavra mais, apenas, para os que agora saem desta Faculdade.

A eles também temos qualquer coisa a pedir:

pedimos-lhes que percebam que agora é que começa a verdadeira aprendizagem, que agora é que, do pouco que aprenderam, podem ter a verdadeira medida, na solidão da responsabilidade das vossas decisões independentes.

Basta, então, pedir-vos que não percam nunca a medida da vossa própria ignorância e que considerem como vossa obrigação aprofundar, cada vez mais, os limites da consciência do que ainda têm para aprender, pois que é essa a grande descoberta do intelectual e do profissional honesto:
conhecer cada vez melhor as fronteiras do que está para lá do que já sabe.

Espero que esta Faculdade vos tenha aberto as portas do saber que há ainda tudo para saber.

JOSÉ FORJAZ

1998