ARQUITECTURA REVISTEIRA

As revistas de arquitectura deveriam ser reservadas a pessoas de sólida formação moral


Num mundo de publicações profissionais e de divulgação onde a responsabilidade intelectual não é sistematicamente posta em causa sob a capa demagógica da liberdade de expressão e da vacuidade da produção artística, as revistas de arquitectura, do Japão à Espanha, da Holanda à Itália e da África do Sul ao Equador, conseguem ser as campeãs do vazio critico e da superficialidade de análise fundamentada.

Salvo raríssimas excepções e mesmo essas, na maior parte das vezes, iniludivelmente tecnocráticas, o material apresentado, e em geral muito bem apresentado, é um exercício de sedução gráfica e de composição cada vez mais competente e sofisticado mas, na maior parte das vezes, focalizado exclusivamente no efeito transiente e particular de um detalhe, em efeito de luz ou o resultado das acrobacias técnicas que as modernas lentes permitem.

Independentemente da qualidade da arquitectura apresentada, cujo valor comparativo nunca é analisado, o que nos é normalmente servido é um texto acrítico e auto referenciado, sem uma análise dos parâmetros quantitativos e objectivos da obra, longe de qualquer consideração sobre o valor ambiental e de sustentabilidade, quantitativamente expresso e analisado, sem vida humana presente ou aparente, sem as marcas do tempo e sem qualquer reflexão sobre o seu comportamento social ou sua integração ecológica.

As maiores barbaridades como a de um museu em Londres com pouco mais de quatrocentos metros quadrados que custou 11,5 milhões de libras !!!!! são servidas sem um comentário sobre a enormidade desta realidade num mundo onde ¾ partes da humanidade não tem as mínimas condições de habitabilidade asseguradas.
Igualmente se poderia comentar sobre uma tribuna de imprensa para comentadores de cricket, em Londres, que custou mais que um hospital regional em África.

Refiro estes exemplos não porque sejam excepcionais mas porque são emblemáticos da pornografia formal em que se refugiam os arquitectos que, progressivamente, vão perdendo o direito ao respeito que se lhes devia prestar.

O maior valor que se entroniza e se admira é a capacidade de se inventarem novas formas.
O endeusamento da “imaginação” formal leva, sistematicamente, a que não se analisem os custos das “novas” expressões plásticas ou se lhes contraponham os desempenhos essenciais que a arquitectura deve cumprir como sejam os da sua integração no meio urbano e natural, a sua economia de meios e de materiais, de energia e de factores poluentes a sua facilidade de manutenção e a sua duração, a sua adequação funcional e a qualidade poética dos espaços que, atendendo a todos aqueles factores, ela deve exprimir.

JOSÉ FORJAZ

2011