CONSTRUIR CULTURA

Construir Cultura, ou a procura de uma identidade arquitectónica no contexto da África Austral

Construir Cultura, ou a procura de uma identidade arquitectónica no contexto da África Austral

Foi com muita hesitação e um profundo sentimento de responsabilidade que aceitei o convite para falar-vos sobre “construção de cultura” no domínio da arquitectura. Sinto que deveria encorajar-vos mais pela força do exemplo, e pelo lirismo do discurso, que pela apresentação duma dura realidade que talvez vos ofereça algumas difíceis escolhas.
Considero indispensável, para a compreensão e para a construção da identidade cultural da nossa sociedade, o conhecimento e a compreensão do seu ambiente sócio-económico e natural, tanto quanto da sua cultura material e atitude filosófica.
Falando de dentro das nossas universidades, ou do ambiente protegido da nossa casa ou escritório, podemos fácilmente esquecer o que é o mundo para a grande maioria dos nossos compatriotas.
Não vos vou maçar e cansar com uma litania de números e factos mas algumas quantificações são necessárias para que se percebam as condições de vida da nossa população.
A África sub-sahariana atingiu agora uma população estimada em 220 milhões de pessoas com um rendimento diário de $1 dólar americano, ou menos, contra 10 milhões na África do Norte, 15 milhões na Europa do Leste e Ásia Central, 130 milhões na América Latina e Caraíbas e 960 milhões na Ásia. Isto perfaz um total de 1,85 biliões de seres humanos, isto é, cerca de 1/3 da população mundial, que deve sobreviver diáriamente com 1 dólar ou menos. Se a isto somarmos os 3 biliões de seres humanos que vivem com $ 3 dólares por dia, ou menos, podemos concluir que sómente 15% da população da terra tem um rendimento de mais do que $ 3 dólares por dia.
Estes números são importantes para tornar claro o primeiro ponto que quero provar (e relembrar eu próprio uma vez mais…) de que enquanto considerarmos como nossos clientes, exclusivamente, esses 15% duma minoria previlegiada não estaremos a contribuir de maneira decisiva para a creação de uma arquitectura significativa para o nosso tempo e lugar.
A importância de começar esta comunicação com este enfoque é a de lembrar que esses milhões de seres humanos, que alguns chamam “o outro lado”, vivem perto de nós, ou à nossa volta, e que eles viverão cada vez mais próximo à medida que o seu número cresce e porque não podemos continuar a empurrá-los para a periferia.
Considerando como inaceitável o modelo da realidade urbana da grande maioria das cidades da América Latina e da Ásia e, considerando, por agora, como irrelevante uma análise crítica às cidades da América do Norte, devemos concentrar-nos na análise do contexto Africano para encontrar alguma direcção nova e correcta para o nosso trabalho de organizadores do espaço e criadores da forma das nossas cidades e edifícios.
As cidades europeias, e outras antigas, são, também, menos relevantes para nós, no contexto deste ensaio, uma vez que a sua génese se processou em circunstâncias de todo diversas das nossas.
Assim, e para principiar esta análise, impõem-se algumas considerações históricas.
O processo de descolonização no nosso subcontinente tem pouco em comum com processos históricos semelhantes noutras regiões, incluindo os processos de descolonização noutras partes de África, na Ásia e na América Latina.
Das lutas de libertação e dos processos de reconciliação nasceu uma nova sociedade, orgulhosa de si própria e dedicada à criação de um mundo melhor para todos.
A necessidade da criação da iconografia e dos símbolos formais e espaciais dessa nova sociedade, armada com um reconquistado respeito pelas suas tradições materiais e espirituais, é muito forte e apaixonadamente sentida pela população em geral, pelo artista e pelo intelectual na nossa sociedade.
Esse impulso contudo, pode, se não for profundamente compreendido, ser usado, instrumentalizado, manipulado, viciado e abusado pelas forças mais reaccionárias da sociedade ou mesmo por uma atitude intelectual simplista e reducionista.
Basta lembrarmo-nos das consequências monstruosas das imagens impostas e das falsas identidades das patologias sociopolíticas do fascismo, nazismo e stalinismo para tremer ante o risco de uma artificial e fabricada “identidade africana” produto, agora, de uma mistura mortífera de ingenuidade, oportunismo e chauvinismo.
Este risco tem, já e infelizmente, sido provado como real no nosso continente, na nossa região e nos nossos países.
No projecto e na construção da casa do homem o mesmo impulso é profundamente sentido, e o mesmo risco presente, pois que a arquitectura reflecte, ou deveria reflectir, a cultura do povo, o espírito do lugar e o peso do tempo.
A boa arquitectura deve nascer de programas construídos a partir de necessidades sociais relevantes, estabelecidas em contextos urbanos vibrantes, respeitando o ambiente natural, apropriada técnicamente, económicamente inteligen-te e estéticamente enriquecedora do seu meio espacial e cultural.

Um bom edifício, ou talvez melhor, uma boa peça de arquitectura não produz, de per se, um bom ambiente urbano ou mudará, de maneira significativa, a degradação e decomposição das nossas cidades ou do nosso meio cultural.
A boa cidade não é, necessáriamente, feita de uma colecção de bons edifícios; ela é feita de boas relações entre edifícios e espaços livres, e acidentes naturais e, primária e definitivamente, entre os indivíduos que formam uma sociedade justa e equilibrada.
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O arquitecto que não compreende a escala urbana do seu projecto e a integração do seu edifício na paisagem, pode produzir uma obra prima isolada de grande qualidade formal, um monumento ao seu próprio umbigo, até mesmo um projecto publicável, mas não estará a contribuir para a contrução de um rico e válido ambiente arquitectónico.
Giulio Carlo Argan, em “Arquitectura e cultura” diz:
“… se queremos dar uma definição de arquitectura, coerente com as coisas que faz e de que se ocupa, é preciso dizer que ela forma um todo com a cidade, de modo que tudo o que não funciona na cidade reflecte, em última análise, os defeitos da cultura arquitectónica ou revela a sua incapacidade para preencher as suas funções institucio-nais.”
Penso que é nesta base, e só nesta base, que podemos construir uma plataforma teórica a partir da qual poderemos construir a lógica e o quadro analítico, para avaliar o mérito e a qualidade da nossa produção intelectual, e, com essa capacidade crítica, construir uma identidade arquitectónica própria, reflectindo a realidade do nosso mundo.
Mas a realidade na nossa parte do mundo é, no entanto, que vivemos na sociedade mais desequilibrada, assimétrica, injusta e sem esperança que a história da humanidade alguma vez criou.
A realidade é, também, que esta maldição está constantemente a crescer; que a relação entre os ricos e os pobres está a piorar; e esta brecha está a alargar-se.
A simples e sinistra realidade é que o número de indivíduos pobres em relação ao número de indivíduos ricos está a aumentar diáriamente; nunca tantos sofreram tanto, nem tão poucos tiveram tanto.
Como arquitectos, e como planificadores que não nos podemos recusar a ser, somos, no entanto, servidores dos grandes senhores que governam a nossa sociedade, que tomam as decisões sobre o uso da terra e dos seus recursos, sobre os privilégios a distribuir a cada grupo social e para a manutenção dos seus próprios privilégios.
Agora, que a ilusão de que as barreiras coloniais eram as únicas barreiras discriminatórias se está a dissolver, uma nova forma de sofrimento pode afligir-nos: o da perda da esperança.
Deste fim do mundo fornecemos ao outro as matérias primas e a força de trabalho barata para podermos, e sermos obrigados, a comprar os produtos de que não necessitamos, a adoptar políticas que não fazemos, a seguir os modos de vida dos outros, e, pior que tudo, a criar esperanças que não podemos satisfazer.
Temos, agora, medo de pensar por nós próprios e estamos cada vez mais escravizados às ideias que nos tornam, cada vez mais, dependentes daquilo que, pensávamos, nos tinhamos libertado.
Aceitamos, agora, como uma realidade sem discussão, a monstruosidade de que o que é bom para o negócio é bom para a sociedade.
Mas consideremos de onde vimos e avaliemos a relevância das nossas tradições para a creação de uma nova cultura arquitectónica no nosso novo contexto urbano.
Os produtos da nossa cultura material tradicional, não podem, nunca mais, servir a nossa nova forma de vida urbana.
A maneira de vestir e de comer, da socialização, a religião; as relações entre pais e filhos; a organização hierárquica da sociedade; a nossa relação com as forças e dimensões da natureza todas mudaram para acomodar ideias e realidades muito mais complexas e de maiores entidades geo políticas, novos conceitos de familia e de grupos alargados de famílias, numa sociedade de acelerada urbanização reflectindo novas tendências económicas e tecnologias de produção.
Quase da noite para o dia a estratificação do rendimento familiar das nossas sociedades mudou na sua composição racial e cultural, mas isso não muda a relação deformada entre ricos e pobres e as injustiças que caracterizam a nossa sociedade.
É neste universo em mutações que devemos trabalhar e conceber os espaços urbanos e os edifícios para os nossos lugares de residência, para as nossas escolas e hospitais e para todas as necessidades espaciais da nossa vida social.
A producão de arquitectura é um trabalho de paixão.
Como em qualquer actividade criativa, ela envolve uma descoberta dolorosa do que existe, ou deveria existir, dentro de nós próprios como invenção.
É também um trabalho da razão.
Um fastidioso alinhar de argumentos, de passos lógicos guiados por uma indispensável erudição técnica, bebendo na fonte da cultura, abastecendo e sustentando uma ferramenta fugidia chamada intuição.
É um processo longo e paciente dentro do qual temos um papel único a desempenhar como intérpretes de muitos temas, mediadores de muitas lutas, diplomatas de muitos interesses, manipuladores de muitas esperanças e, mais que tudo, como sonhadores de sonhos alheios.

Esses outros, nossos clientes e patrões, são, as mais das vezes, o especulador, o político, o analfabeto, o vaidoso.
Mas podem também ser o iluminado, o socialmente consciente, o espírito refinado, o competente, os cooperativos e os respeitosos.
A todos eles devemos servir com uma lealdade a nunca trair: aquela de produzir, sempre, um espaço poético habitável, feito de luz e sombra, uma caixa de ressonância para o som perfeito, uma exacta máquina de conforto e movimento, de ordem e de cristalina proporção, duradoura e inspiradora.
É tese minha que estas são as dimensões universais da nossa actividade como arquitectos e de que, tal como a espécie humana, toda ela, tem as mesmas necessidades fisiológicas e psicológicas, assim devem os nossos edifícios resolver, idênticamente bem, a relação entre o espaço e o homem no tempo.
É por esta razão que devemos encontrar sempre o universal no particular ou, o que é o mesmo, que, para obter as mesmas qualidades ambientais e poéticas, devemos produzir sempre uma arquitectura diferente.
É assim, da mais elementar lógica que, tal como as condições sociais, económicas e técnicas mudam com o tempo, assim deve mudar a nossa arquitectura com novas formas e novas relações, melhor adaptadas para responder às novas condições.
A história da arquitectura não é nada mais que a compreensão da capacidade e da inteligência necessárias para interpretar como, com as ferramentas intelectuais e com as técnicas disponíveis, se encontram respostas às necessidades espaciais ao longo da evolução das civilizações.
Estas necessidades espaciais, independentemente de quais os princípios filosóficos que essa sociedade criou, foram sempre expressas por um conjunto de regras que estabeleciam a relação do homem com o meio ambiente, organizando os privilégios espaciais de cada grupo social, e definindo o significado simbólico e valor da forma arquitectónica.
Estas regras são uma estrutura cultural complexa, permanentemente testadas pela evolução dos materiais, das técnicas e dos valores espirituais e pelas alterações que o ambiente construído provoca no meio ambiente.
Estas regras reflectem ou devem reflectir a inteligência da sociedade no uso dos materiais e dos meios tecnológicos disponíveis, e a vontade e a atitude da sociedade para investir na qualidade e na permanência, ou transiência, dos edifícios e estruturas de que necessita.
A história destas regras, e a história dos produtos destas regras, foi escrita e discutida, até recentemente, sobretudo por historiadores ocidentais referindo-se, primáriamente, às realizações ocidentais e à sua evolução ao longo dos séculos.

As razões para esta deformação eurocêntrica são sobejamente conhecidas e compreendidas mundialmente.
A tendência expansionista da civilização ocidental impôs ao resto do mundo a sua presença e os seus valores. A sua natureza eminentemente dominadora absorveu ou rejeitou o que lhe era conveniente, ou incómodo, nas outras civilizações com as quais contactou.
A noção de um mundo finito, com dimensões e características conhecidas, onde a importância da posição relativa dos diferentes povos foi demarcada e definida e as suas culturas estudadas e exploradas, é muito recente e, provávelmente, ainda não completamente compreendida por todo o mundo nesta, assim chamada, idade da globalização.
Esta noção começou a tomar forma objectivamente só após Magalhães que, no início do século XVI, circumnavegou o globo, provando a sua esfericidade e os seus limites.
Mas o conhecimento dos povos, dos seus modos e dos seus pensamentos fluiam principalmente numa direcção: aquela da Europa. Ali, através dos navegadores, exploradores e estudiosos Portugueses, Espanhóis, Holandeses e Britânicos, este conhecimento tornou-se integrado e enriqueceu a cultura e a civilização europeia.
Mais que a fauna e a flora, mais que os minerais e os escravos e o comércio das especiarias, mais que o ouro e o marfim, o que veio desses outros mundos para a Europa, foi o mistério, o sonho e o mito de um novo mundo de distâncias ilimitadas, da natureza virgem e da inocência do bom selvagem.
Mas as antigas civilizações do Ocidente e do longínquo Oriente, situaram-se em polos opostos de atitude.
No Ocidente a necessidade de encontrar novas fontes de riqueza material e expansão do comércio e da sua influência. No Oriente uma atitude xenófoba e defensiva manteve fechados os países nas suas crenças e na sua cultura material.
O resultado dessa oposição de antipodas foi de profundas consequências para a humanidade e determinou as condições em que nos encontramos agora, com uma civilização filosófica e materialmente estendendo a sua influência, cada vez mais dominante aos quatro cantos do mundo.
Esta influência é tão importante, e o seu domínio tão poderoso, que em parte nenhuma encontra um foco de resistência às verdades axiomáticas, que propõe um desafio aos seus níveis de conforto e impossível riqueza, ou a afirmação convicta de um modo alternativo de estar neste mundo.
Com a aniquilação de toda e qualquer força política de oposição ou de uma plataforma ideológica alternativa o ocidente reafirmou o seu poder e adoptou, sem qualquer resistência interna sensível, uma cultura de consumismo e desperdício e suicida que se generalizada a todo o mundo.

Uma cultura com implícitos mecanismos de auto-defesa, de segregação, de divisão social e desigualdade, agora à escala global.
Mas também, e por outro lado, desenvolveu uma cultura tecnológica sumamente avançada e criou as mais sofisticadas produções científicas e artisticas, uma profunda capacidade de auto análise e de elaboração filosófica e, talvez mais importante que qualquer outro factor no nosso tempo, um poder irresistível de comunicação e propaganda.
A análise da evolução do pensamento ocidental é um capítulo importantíssimo de qualquer exploração epistemológica, mas não é possível ou essencial nos limites para este estudo.
É, no entanto, importante considerar que na sua feitura e estruturação, diversas culturas contribuíram e se juntaram, incluindo nela poderosos elementos de culturas Africanas, especialmente após a colonização e a divisão de África entre os poderes Europeus.
Mas, se o modelo ocidental é material e moralmente impossível, o Sul, não encontrou, ainda, um modelo alternativo.
África quer, ou é forçada a aceitar, a adoptar e a seguir as idiossincrasias e o caminho suicida do “Norte”.
Há, no entanto, outras dimensões para além do generalizar do consumismo, a considerar quando contemplamos a globalização.
Chegámos, neste início do novo milénio, a novas constatações sobre a interdependência dos factores ecológicos. Está para todos claro que uma responsabilidade universal e partilhada é indispensável para se levar a civilização, ou, se preferirmos, a humanidade até ao fim do novo milénio ou, talvez mais realísticamente, até ao próximo século.
Não podemos adiar a absoluta necessidade de integrar, num claro conceito filosófico, os princípios que regulam as relações entre os homens, isto é a ética e a política e as regras que regulam as relacões entre os homens e a natureza, isto é, a ciência, a tecnologia e as artes.
A ideia de que o planeta é democráticamente redondo e que o sol, à sua volta, torna possível ao homem viver em todos os lugares dividindo a riqueza comum e contribuindo para o tesouro comum do seu génio e invenção deveria, já, ter superado a intolerência do Norte contra o Sul, do Ocidente contra o Oriente, do branco contra o preto, contra o amarelo.
O nosso futuro depende da nossa capacidade para analizar criticamente as opções e os modelos que nos são oferecidos ou impostos.
A nossa sobrevivência depende da profundidade desta análise e da coragem da escolha, ou rejeição, de uma parte ou de todo e qualquer modelo.
A validade da nossa identidade cultural será proporcional à nossa capacidade de proposta, e realização, de um modelo de coerência entre os nossos objectivos sociais e a qualidade do ambiente construído.
Como arquitectos manipulamos dimensões do habitat humano que condicionam profundamente a qualidade da vida humana. Distinguir claramente os limites de tais dimensões não é fácil. O espaço, que é o nosso maior, se não único, objectivo, é multi-dimensional, dinâmico no tempo e campo de muitas batalhas.
Da composição nas duas dimensões da superfície à grandeza da modelação da paisagem, das complexidades da organização do espaço urbano à aparente simplicidade do projecto da autoestrada ou da ponte, da inteligência necessária no inventar do preciso detalhe à dificuldade do desenho duma boa peça de mobília, a nossa arte e profissão forçam-nos a assumir pesadas responsabilidades.
Podemos dedicar-nos a uma destas dimensões e especializarmo-nos, ou limitarmo-nos, a uma estreita especialização.
Mas, não importa quanto nos tornemos bons, eficientes ou ricos, dentro destes limites, não podemos esquecer-nos que a realidade é mais vasta.
Essa realidade é a de nos sabermos ou não capazes de fazer com que a a nossa arquitectura responda à ideia amadurecida de um habitat justo e ecológicamente equilibrado para a sociedade humana, no contexto urbano.
Durante muitos séculos antigas civilizações urbanas criaram, desenvolveram, abandonaram, destruíram e recriaram, um tesouro de cidades de valor incalculável.
O tempo pôs à prova, e geração após geração seleccionaram os melhores aspectos e dimensões destas criações admiráveis.
Muitas dessas cidades sobreviveram a regimes políticos opostos, guerras e destruições terríveis, à ganância e à injustiça, a pestes e tremores de terra, a cheias e ao nascer do sol todos os dias.
Só o tempo e o sofrimento humano, o amor, a inteligência humana e a conservação de velhas tradições, o respeito pelo significado histórico destes espaços e edifícios, árvores e rios, e pelo mar e pela beleza da cadeia das montanhas que as enquadram, podem explicar a densidade poética destes lugares, o lento acumular de qualidades destes sublimes artefactos humanos.
Mas podem elas servir como nossos modelos?
A história das cidades é a história das sociedades que as criaram e destruíram.
É a história de como o Homem usou a natureza e usou os outros homens.
As cidades africanas, excluindo os grandes centros urbanos do Norte e do Oeste africano, eram, até meados do século passado, efémeras e marginais aos modos de vida da grande maioria dos africanos.
A terra era da comunidade e o seu uso atribuído, como necessário, pelo chefe de cada família, ou clã, num sistema complexo de direitos sociais e hierarquias que preservavam, com muita sabedoria, os valores ecológicos do frágil ambiente natural africano.
Mas no mundo rural a pressão do grupo humano no mesmo local é mínima e as construções podem fácilmente ser deslocadas para melhores posições, como necessite o melhor aproveitamento da terra.
As tradições e a práctica agrícola e pastoral exigiam uma relação menos rígida com o lugar de habitação. As tecnologias de construção não necessitavam ter de assegurar um alto índice de permanência às edificações e o clima, em geral, não impunha estructuras complexas para a protecção contra os elementos, nem o uso de tecnologias, materiais ou ferramentas altamente sofisticadas.
Os primeiros séculos de colonização afectaram profundamente o tecido social africano, principalmente ao longo das zonas costeiras, pela maciça exportacão de escravos e pela imposição de uma economia monetária a uma sociedade agrária e pastoral habituada à auto-suficiência, na maior parte dos aspectos da sua vida.
O progressivo avanço dos colonizadores e dos comerciantes, sem mudarem a sociedade nos seus modos de vida e de trabalho, criaram o que se conhece hoje como subdesenvolvimento ou pelo eufemismo de mundo “em desenvolvimento”. A compatibilidade indispensável entre as tradições africanas e novas formas de governo, novos objectivos económicos e códigos de lei abstractos, ainda não foram resolvidos.
Alguns pontos essenciais ficam, até aqui, espero bem, mais claros.
Antes de mais, que é inútil considerar importante, como expressão arquitectónica de um país, ou de uma região, algumas realizações eruditas ou excepcionais que não representam, caracterizam, ou mesmo influenciam, o mais vasto ambiente cultural e físico e não contribuem para uma mudança significativa ou melhoria da qualidade de vida da sociedade em geral.
Não quero com isto dizer que não devemos tentar criar, e tentar sempre criar, realizações excepcionais. Isso é um imperativo intelectual.
O que eu quero dizer é que, como analistas, investigadores e contribuintes para a elaboração de uma nova cultura espacial, devemos dedicar-nos à compreensão dos elementos mais profundos da cultura dos povos para quem trabalhamos, à história do seu pensamento, religiões, organização social e económica e ambiente físico.
O que eu quero dizer é que é desta investigação paciente e esclarecedora que desenvolveremos uma nova atitude e que encontraremos uma nova arquitectura.
O estudo dos carácteres identificadores e das expressões culturais de todas as outras culturas é, também, indispensável e enriquecedor; mas, durante esse estudo, devemos saber identificar o que as torna valiosas e, por vezes, excepcionais.
Devemos perceber as suas formas como resultado dos seu processo criativo e devemos perceber o seu valor tanto ao nível objectivo e mesurável como ao nível do subjectivo e emocional.
A nossa nova sociedade Africana, urbanizando-se ao ritmo mais rápido de toda a história da humanidade, está rápidamente a perder a capacidade de construir o seu abrigo e os seus espaços económicos.
A velha sabedoria e conhecimentos não podem mais ser utilizados plenamente neste novo ambiente social e urbano.
As escolas não ensinam as antigas manualidades nem os segredos escondidos da natureza. Elas ensinam as ciências, o conhecimento literário e as profissões especializadas de que a nova sociedade urbana necessita, mas que não tem capacidade para pagar.
O camponês era um agricultor, um pastor e um construtor. A família tinha a capacidade de construir a sua própria casa, a aldeia os seus espaços sociais e o celeiro comunitário. E construí-los bem.
Tinha a capacidade e os materiais. Sabia quando e como usá-los. Conhecia a necessidade da entreajuda, o preço da gratidão, o valor da solidariedade.
Conhecia a força e a direcção do vento, a posição do sol no firmamento, e da lua e das estrelas. Conhecia os outros e sabia o lugar de cada um na hierarquia social.
Conhecia o material e o valor ecológico e cosmogónico de uma árvore.
O camponês não precisa do arquitecto para produzir a arquitectura de que necessita e que contrói, tantas vezes, com qualidade excepcional.
A aldeia Africana é um modelo de medida e adequação ao meio ambiente. A sofisticação da sua cultura material não pode ser entendida por aqueles que não sabem ver ou escutar outras manifestações culturais que a sua própria.
Infelizmente a cultura material Africana é melhor, ou quase exclusivamente, conhecida através daqueles objectos e daquelas manifestações que podem, mais fácilmente, penetrar nos mercados de antiguidades ou curiosidades.
Na relação com a natureza e no profundo conhecimento das suas forças e segredos, a sabedoria dos camponeses africanos, tornou-se o campo de interesse do antropólogo ou do turista esclarecido mas raras vezes essa sabedoria é motivo de real interesse para os novos intelectuais africanos.
O seu apelo a uma identidade Africana é, quase sempre, um grito oco e vazio.
O filósofo moçambicano, Severino Ngoenha escreve:
“Hoje o intelectual Africano não possui nenhuma possibilidade de se defenir a si próprio através das suas tradições; a necessidade constante de nos virarmos para o passado revela a profunda crise que atravessamos…”
(“O regresso do bom selvagem” Ed. Salesianos, Porto, 1994)
Isto é também verdade para nós, arquitectos, mas, para nós, há dificuldades ainda maiores quando tentamos trazer o passado arquitectónico Africano em nossa ajuda.
Não há lugar, em arquitectura, para a complacência ou para o compromisso quando o que está em jogo é a segurança estrutural, a saúde, a economia dos espaços e o custo das construções. Isto é particularmente verdadeiro na cidade onde os edifícios afectam e dependem uns dos outros e onde o vizinho pode mesmo ser o inimigo.
A migração para as cidades e a modernização do ambiente rural são fenómenos aceleradores que não têm, como já tive ocasião de notar, correspondência na disponibilidade de especialidades e na oportunidade para a criação dos espaços comunitários de que a nova sociedade urbana necessita.
O nosso ambiente construído está, consequentemente, num processo de decadência e perda das suas qualidades tradicionais sem qualquer alternativa oferecida pelos processos político, administrativo ou técnico.
Com um mundo rural cada vez mais abandonado à sua sorte, sem nenhuma possibilidade de competir nos mercados internacionais, novos bairros precários se vão formando à volta das cidades, em anéis de crescimento rápido com uma população de desempregados e camponeses sem qualquer capacidade de autosuficiência.
A nova burguesia ocupou os lugares e privilégios coloniais sem poder, no entanto, manipular os mesmos mecanismos de defesa, e não têm agora outra solução senão entrincheirar-se em guetos protegidos e segregados sob o cerco silencioso dos sem casa e sem emprego.
Os centros de negócios das nossas cidades são agora o lugar da última oportunidade para milhares de pessoas, que recorrem ao que é considerado como actividades marginais para a sua sobrevivência.
Parece-nos claro, então, que pode não ser a antiga forma das nossas aldeias ou a forma actual das nossas cidades e guetos que necessáriamente nos ajudarão a definir uma melhor identidade para a nossa arquitectura.
Creio que a identidade da nossa arquitectura e urbanidade deve ser encontrada na busca do futuro, num futuro melhor, muito mais do que na continuidade do passado, especialmente do passado mais recente.
Se é verdade que a cultura se constrói sobre cultura, não é menos verdade que a nossa identidade arquitectónica tem raízes da qual uma nova planta deverá nascer.
No nosso passado arquitectónico não temos as Pirâmides ou o Panteon, não temos a stupa ou a catedral, nem o aqueduto romano ou as estradas pavimentadas ou as paredes que separam os campos, ou os moinhos de vento e os diques e barragens.
A sociedade tradicional não necessitava destas construções e estruturas.
Necessitamos delas agora e devemos construi-las, aprendendo com os sucessos e erros dos que as construíram antes de nós.
Poderá isto ser considerado como uma perda de identidade?
Procurar a arquitectura da democracia, planear a igual oportunidade para que todos beneficiem de um meio ambiente equilibrado deveria ser o nosso verdadeiro objectivo.
Isto pode parecer por demais moralistico ou abstracto.
E no entanto praticá-lo no dia-a-dia é uma escolha real, difícil e um compromisso vinculante.
É um compromisso porque devemos escolher o que fazer antes de decidir como fazer pois nem todos os trabalhos que nos são pedidos são aceitáveis e é inaceitável a justificação de que se não o fizer eu próprio outro o fará.
É uma escolha difícil porque não podemos servir bem a dois senhores: os interesses do especulador, (tantas vezes disfarçado de investidor altruísta) e os interesses da sociedade, normalmente em polos opostos.
É uma prática difícil porque, são normalmente, o nosso preconceito e a nossa ignorância que nos impedem um conhecimento mais profundo das necessidades dos nossos clientes e a escolha das soluções técnicas, económicas e estéticas mais correctas.
Não temos, no entanto, outra escolha.
Albert Camus no seu discurso na Universidade de Upsala, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura em Dezembro de 1957, disse:
“Há certamente, ao longo da história, muito poucos exemplos de artistas confrontados com problemas tão difíceis. Mas, exactamente porque as palavras e as frases, mesmo as mais simples, se pagam a peso de liberdade e sangue, o artista aprende a usá-las com cautela. O perigo torna-nos clássicos e cada grandeza a cumprir tem as suas raízes no risco. A era do artista irresponsável acabou.”
Penso que isto é tão verdadeiro hoje, para nós arquitectos, como o era para os escritores e artistas no período da guerra fria, na segunda metade do século passado.
Aqui estamos, então, com a missão de inventar um novo e melhor ambiente construído para o sub continente da África Austral, mas a validade desta invenção é, como sabem, muito mais vasta.
Seria de um pretensiosismo imperdoável deixar-vos com qualquer fórmula para uma nova arquitectura africana ou com uma nova receita para uma nova identidade arquitectónica da África Austral.
Mais do que pretencioso isso seria estúpido e falso.
A minha tese, que já antes referi, é que a chave para uma genuina cultura arquitectónica deve ser encontrada nas criações do construtor anónimo respondendo às condições ambientais, naturais ou criadas pelo homem, com os materiais e tecnologias disponíveis, dentro das suas limitações económicas e preferências estéticas.
Defendo igualmente a tese de que a arquitectura tradicional da nossa região é a arquitectura da aldeia, uma arquitectura de construções de baixa densidade humana, realizada em edifícios de pouca duração.
Devemos reconhecer que as poucas realizações históricas, da tradição arquitectónica da nossa região, não são adequadas às novas necessidades e às novas imagens urbanas porque são de natureza monumental e respondiam a uma organização social que já não é aceitável.
Tomar como modelos, as imagens e a expressão formal dos zimbabwes da nossa região seria uma aculturação tão errónea como adoptar um estilo high tech para a construção de um mercado suburbano.
Pela mesma razão seria falso adoptar, por exemplo, a gramática decorativa Ndebele ou o carácter escultural dos seus edifícios e usá-los como base expressiva para uma arquitectura necessáriamente construída com diferentes materiais, para diferentes clientes, em contextos urbanos e sociais diferentes.
Os zimbabwes, a casa tradicional dos Ndebele, Suázi ou Zulu são expressões sublimes de uma tradição arquitectónica africana. Conhecê-las e estudá-las é obrigatório para qualquer arquitecto que se respeite, nesta parte do mundo.
Tomá-las como exemplo ou modelos formais para uma arquitectura adequada à nossa moderna sociedade seria, no entanto, um erro imperdoável.
Pela mesma razão idênticas seria também intelectualmente falhado procurar modelos estéticos nas criações arquitectónicas clássicas ou modernas europeias, americanas ou japonesas.
Na primeira parte desta exposição defendi que a base para a criação de uma cultura arquitectónica endógena deveria ser procurada e encontrada na solução para os problemas do ambiente urbano das nossas cidades, desesperadamente caóticas.
Conhecendo eu, como todos certamente conhecem, as condições de evolução e de mudança das nossas cidades isto pode parecer um apelo irresponsável ou sem sentido.
Mantenho, no entanto, que assim não é e baseio o meu desafio em dois argumentos que me parecem claros e sem margem para dúvidas.
O primeiro é o facto de que as nossas cidades são uma herança colonial e não respondem às novas necessidades da sua população.
A rápida decadência e a degradação dos centros das cidades; a proliferacão dos parques de negócio defendidos e dos centros comerciais discriminatórios, realmente acessíveis apenas a um sector privilegiado da população; a atomização das áreas residenciais em guetos de perímetro e de entrada estritamente controlados, a marginalização da maioria da populacão urbana para zonas cada vez mais distantes e bairros de caniço inacessíveis; todas estas patologias urbanas confirmam a necessidade da nossa urgente e devotada atenção.
O meu argumento é que é precisamente na resolução deste tipo de problemas que reside o potencial criativo duma expressão arquitectónica própria e adequada às nossas condições específicas.
É, talvez, nos bairros de caniço, com os seus mercados informais e locais de ajuntamento, que poderemos encontrar a semente para uma nova urbanidade com a recuperada vibração da vida urbana e da socialização espontânea.
O abandono e a falta de preocupação com os caniços pelas nossas autoridades municipais criou as condições para o aumento da criminalidade e a falta de segurança e higiene.
Isto não deveria forçar-nos a tomar estes lugares como realidades a condenar e a erradicar. Pelo contrário, só olhando para o seu potencial de desenvolvimento podemos encontrar as oportunidades reais para a criação de uma nova e rica realidade urbana.
O segundo argumento é que, aparentemente, não há qualquer modelo válido noutros tempos ou lugares para a arquitectura e desenho urbano que necessitamos criar na nossa região.
Como já apontado isto não é, essencialmente, um problema arquitectónico. É, primáriamente, um problema político se não mesmo um problema ideológico.
Não podemos, no entanto, escapar à responsabilidade de apontar aos políticos as desastrosas consequências sociais e ambientais das suas manipulações e da sua curta visão.
Basicamente é nossa responsabilidade conhecer a extensão do problema, procurar-lhe soluções e contribuir, com os nossos conhecimentos, para materializar essas soluções.
Muitas destas considerações podem parecer muito vastas ou abstractas ou longínquas demais para serem úteis, mas elas definem a atitude intelectual a partir da qual se pode construir uma identidade arquitectónica.
As referências formais para essa identidade arquitectónica devem ser objecto de uma análise desapaixonada e corajosa.
Na ausência de uma tradição vernácula de arquitectura urbana o que nos resta é a expressão colonial, a qual, mesmo reflectindo modelos importados, é, tantas vezes, muito bem adaptada às condições ambientais da nossa região.
O estudo desses modelos pode revelar qualidades surpreendentes que devemos respeitar e, porque não, adoptar criticamente.
Mais recentemente, e coerentemente com a sua intenção “internacional” um número de edifícios de grande qualidade foram projectados e construídos. Eles merecem o nosso estudo e avaliação pois consideraram sériamente os parâmetros do nosso meio ambiente e tecnologias e propunham honestamente uma atitude estética baseada em princípios universais formais.
A forma e a expressão arquitectónica é o fim dum processo. O primeiro passo deste processo deve ser encontrado dentro da capacidade de cada arquitecto para a invencão poética. Este primeiro passo é, no entanto, um passo recorrente que deve ser repetido a cada momento de síntese formal e a cada elaboração técnica.
Como um amigo meu costuma dizer, a nossa é uma profissão poética. Mas a poesia alimenta-se da nossa capacidade para ver e questionar e ilumina a nossa capacidade para exprimir as dimensões intangíveis da realidade à nossa volta.
Não é menos no drama social que no cheiro da terra depois da chuva ou no nosso céu azul ultramarino que poderemos encontrar a inspiracão poética.
Pode até ser numa pedra ou nas formações desérticas, se não no negro da nossa noite tropical ou nas explosões de cor do pôr do sol que a qualidade da luz nos nossos espaços deva ser encontrada.
Posso até mesmo confessar que há mais de vinte anos que procuro a cor que reproduza o óxido vermelho do nosso solo laterítico.
Já tentei e experimentei com solo-cimento, e com as nossas terras e areias, com tintas comerciais de todas as marcas, com pigmentos naturais e com o solo em si, mas ainda não encontrei satisfação, nem encontrei a qualidade do material que possa fazer justiça à riqueza desta terra de África.
A minha busca vai continuar, e as minhas raízes vão-se enterrando cada vez mais profundamente nesta mesma terra.
Pode ser que tudo não seja mais do que uma tentativa para fazer com que os meus edifícios se tornem não apenas e só um acidente na paisagem, moldando-os da densa matéria telúrica do lugar.
Pode mesmo ser que seja apenas a busca ingénua ou simplista de uma identidade, única do lugar e do tempo, mas é um começo, é uma tentativa.
A nossa arquitectura deve ser encontrada e resolvida nas limitações particulares dos nossos materiais e das nossas habilidades.
Os nossos edifícios devem ser inventados, concebidos e detalhados para saírem precisamente destas limitações, não diminuídos mas orgulhosos da sua força e do seu carácter.
Desde o igloo, feito de um material e de uma ferramenta, à tenda trasportável dos nómadas; das esculturas caiadas habitáveis das ilhas Gregas ao barroco Ndebele, a prova da minha tese é clara: só as nossas limitações intelectuais podem explicar uma arquitectura inferior.
Sabemos que os nossos clientes, saídos dos seus Mercedes Benz ou Volvos, esperam de nós o mesmo nível e qualidade de construção e acabamentos que podem obter das produções industriais mais sofisticadas do mundo. Os nossos clientes, podem agora, através da internet ou da televisão ou das suas viajens ao estrangeiro, ficar com a ideia e a experiência, de um mundo de construções e tecnologias que pensam poder ter aqui, para satisfação do seu auto definido e imposto “status”.
Não seremos capazes de os convencer, por palavras, que a nossa indústria tem limitações diferentes e que não podemos esperar da nossa produção, saída de trabalhadores esfomeados e de limitadíssimos meios materiais, o mesmo nível de trabalho e qualidade de acabamentos que pode ser obtido na Europa ou na América.
Não os conseguiremos convencer por palavras.
Mas podemos tentar convencê-los com obras.
Não há nada de errado nos materiais mais simples, e muitas vezes, mais fortes que aqui podemos obter. Não há limites para a nossa capacidade inventiva e para a capacidade de satisfação das necessidades sociais a que os nossos edifícios devem responder.
Compete-nos ter a coragem de propôr uma arquitectura saída das nossas limitações, melhor adaptadas às nossas idiossincrasias técnicas e estéticas, com a sua identidade própria e única.
Um amigo meu acaba de me oferecer um relatório esplêndido do trabalho efectuado, sob sua direcção, para o levantamento, a conservação e a reabilitação do Coliseu de Roma. Uma equipe de técnicos altamente qualificados, da Universidade de Roma “La Sapienza”, levou seis anos para completar este trabalho, com um custo de alguns milhões de dólares. É um trabalho importante, muito competente, o resultado de um profundo estudo, de grande valor e admirável. Penso que as gerações futuras devem agradecer a estes cientistas, técnicos e artistas a sua devoção e competência.
Não deixo de pensar que, nesta parte do mundo onde vivemos, a necessidade de tal estudo não é tão premente, pois o nosso património monumental, histórico e artístico, no campo da arquitectura, é de dimensão tão menor.
Mas, ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar que a necessidade de construir o nosso próprio património histórico, as nossas futuras ruínas, nos dá a pesada responsabilidade, e a bela oportunidade de criar, ex novo, a nossa própria identidade arquitectónica.
Este é, para mim, o significado profundo e a pesada responsabilidade da nossa produção artística: devemos construir os símbolos e modelar a identidade formal de uma sociedade que está, agora, habilitada a exigir estes símbolos e esta identidade expressa atravéz dos seus edifícios.
Esta oportunidade vem-nos, no entanto, numa altura em que o debate à volta das virtudes do “regionalismo”, contra a conspícua promiscuidade das expressões arquitectónicas, esconde a real dimensão do problema.
O problema consiste em projectar edifícios sem impacto negativo no ambiente, respondendo perfeitamente ao seu programa funcional, na mais estrita economia de construção e manutenção, resolvendo problemas ambientais internos e externos, com uma perfeita integração urbana e exprimindo o ethos do grupo humano para quem trabalhamos, através da nossa imaginação e invenção poéticas.
Há, por vezes, a tentação de transferir a responsabilidade da qualidade do ambiente construído para os nossos clientes, pois que é a sociedade ela própria que, em última instância, define e solicita a arquitectura que necessita.
Mas estará a nossa sociedade preparada para esta responsabilidade?
Uma sociedade verdadeiramente democrática será possível sómente quando, os cidadãos estiverem informados e capazes de decisões educadas.
Os problemas da organizacão do espaço e o conhecimento dos factores de conforto e sustentabilidade das estruturas em que vivemos, devem ser conhecidos por todos e fazer parte dos curricula da nossa educação primária e secundária, assim como deveriam ser uma componente essencial das disciplinas propedeuticas de todos os cursos universitários.
Tal proposta poderá parecer utópica mas é minha profunda convicção que não avançaremos significativamente, na formação do nosso ambiente arquitectónico, a menos que a consciência das qualidades espaciais e do desempenho ambiental dos nossos edifícios sejam definidos científicamente e criticamente analisados pelos nossos clientes privados ou institucionais.
Uma análise crítica e desapaixonada deverá ser feita sobre os métodos pedagógicos das nossas faculdades de arquitectura e aos seus curricula.
As tendências formais e tecnológicas da maior parte dos programa do nosso ensino de arquitectura deveriam completar-se com uma preparação filosófica sólida e com o desenvolvimento de uma profundaa compreensão científica dos problemas ambientais e ecológicos que o arquitecto deve encarar e resolver, e das tecnologias que manipula.
Estes são os instrumentos essenciais para tornar os nossos estudantes capazes de compreender que tecnologia é uma ferramenta, não um objectivo.
Para nós arquitectos, com esta visão, os edifícios são produtos culturais e assim, para nós, a cultura da construção é a nossa forma de construirmos cultura.
A minha tese é, exactamente que construção é, simultâneamente, um processo e um produto.
A contribuição da arquitectura para a estrutura cultural de uma sociedade é mais evidente naqueles meios onde uma acumulação de realizações do passado arquitectónico criaram um léxico visual e uma cultura de formas que précondicionam os termos nos quais as novas solicitações são formuladas.
A cultura visual e material, assim como os níveis de vida e de conforto, os protocolos das relações entre os actores do drama diário, e as qualidades do espaço são, para essas sociedades, profundamente marcadas por formas codificadas de vida social, associadas a um léxico codificado de formas, evoluídas e aperfeiçoadas ao longo de séculos de pequenos ajustes.
No nosso caso a relevância cultural e o significado histórico do património arquitectónico é proporcional à sua menor quantidade e a sua relevância simbólica tem, muitas vezes, associações falsas ou negativas.
O próprio processo de construção foi, muitas vezes, consequência de processos sociais e económicos negativos que estão, ainda hoje, muito frescos na memória e nos sentimentos das pessoas.
Por isso a base sobre a qual devemos construir a nossa identidade arquitectónica é tão difícil.
Apesar disso deveriamos, ser capazes de estabelecer alguns conceitos e directivas que nos guiem nesta selva de problemas. Assim, por exemplo:
- a ideia de que o arquitecto deve ser um visionário corajoso, com uma profunda preparação filosófica, pois os seus projectos e realizações terão um significado e durarão mais que ele próprio;
- a ideia que o arquitecto deve conceber o ambiente urbano para uma população com pouca ou nenhuma capacidade para pagar alguns dos serviços essenciais, mas, que no seu projecto deve acomodar a mudança à medida que mudam as capacidades do povo;
- a ideia que a relação individual com a terra e com a natureza podem, e deve ser preservada e assegurada na cidade, através de uma relação inteligente entre o domínio privado e o público;
- a ideia que o conceito de “eficiência” dos nossos projectos deve ser entendido para além do sentido estritamente economicista e assegurado em função de objectivos globais;
- a ideia de que devemos revelar aos estudantes a alegria de saber que cabe a eles continuar a invenção de um mundo melhor para a humanidade;
- a ideia de que as noções acima expressas deveriam formar o núcleo do curricula das nossas escolas de arquitectura;
No início deste ensaio afirmei que devería encorajar-vos mais pela força do exemplo e pelo lirismo da palavra do que pela revelação das dificuldades do nosso trabalho.
Como este ensaio não pode certamente ser considerado lírico, e porque devo assumir a responsabilidade pela coerência entre o que penso, o que digo que faço, arrisco-me a mostrar-vos algumas imagens do meu trabalho.
O que mostro são os projectos dos últimos anos, feitos para uma grande diversidade de clientes, com diferentes programas e custos.
Penso que eles serão suficientes para provocar uma apreciação crítica e, como tal, servir o propósito desta apresentação.

JOSÉ SOARES

2000