EDUARDO SOUTO DE MOURA

Do Eduardo conheço alguma obra e alguma coisa escrita e desenhada.

Da pessoa conheço menos mas, das poucas vezes que nos encontrámos, guardo uma memória de afabilidade e companheirismo
de profissionais do mesmo oficio, com algum passado comum nos meios culturais que ambos diacronicamente atravessámos.

Eu sou, ainda, da ESBAP, Escola Superior de Belas Artes do Porto na qual assisti ao desaparecer da arquitectura ... quiçá por qualquer mal situado complexo de não sermos faculdade, com todas aquelas farpelas e graus, lentências e mestrâncias, doutorâncias e eméritências.

Éramos, assim, mais modestos e apagados, naquele nosso canto da Rodrigues de Freitas, integrados no real duma cidade ainda com “ilhas”, miséria e pobreza envergonhada e não perdíamos tempo com aquelas dimensões do acesso ao catálogo das almejadas hierarquias académicas.

Éramos alunos e mestres, mas mestres eram só os da mestria adquirida no trabalho e na experiência profissional e artística, que é a mesmíssima coisa.

Na minha paisagem de referencia intelectual os recortes do nosso horizonte eram também, as mais das vezes, os companheiros do café Majestic, que tínhamos inventado como o lugar geométrico das nossas convicções e das nossas crípticas associações ideológicas ( ... nesse tempo ainda se discutia mais ideologia que política ...).

Presentes eram o “velho” Mestre Ramos, o “velhinho” Arnaldo Araujo e o Filgueiras, o António Quadros, o Soutinho, o Baptistinha e o Rui Pimentel, volta e meia o Mestre Barata Feyo, o Lagoa e o Gustavo Bastos, o João Charters e o Raul Hestnes, o Castelo Branco, o Felgueiras, o Siza ... etc, etc.

Discutia-se o que tinham feito ou estariam a fazer o Losa e o Godinho, o Rica e o Távora, o Loureiro e o Viana de Lima, o Andresen e mesmo, a nebulosa distância, o que fariam os longínquos Keil e Cassiano Branco, o Taínha e o Conceição Silva, o Nuno Teotónio e o Bartolomeu Costa Cabral, o Formosinho e o Frederico Jorge ...

Misturavam-se pintores com arquitectos e escultores, um salpico de gente do teatro e do cinema, poetas e filósofos entronizados ou aspirantes, todos com igual direito de opinião, julgada relevante para a construção de um nunca alcançado consenso.

Uma saudável e permanente dialéctica!

Saía-se dali para as noitadas de trabalho e ... ás vezes para a PIDE.

Comentavam-se Sartre e Beauvoir, Braudel, Worringer e Lukács, Bachelard e Lefebvre, Zevi e Mumford.

Corbusier e F.L. Wright eram, em surdina constante, uma espécie de comichão subjacente a qualquer discussão e só mais tarde apareceram o Aalto e os holandeses, o Albini e o Scarpa.

( ... entretanto eu lia o Viollet Le Duc na Biblioteca Municipal, edição original dos Entretiens de 1867 que agora, preciosamente, possuo)

Revistas eram duas: L’Architecture d’Aujourdoui e l’Architettura do Zevi. Vieram outras, depois, da Inglaterra e da América, do Japão e da Espanha, menos conhecidas e estudadas.

Foram os anos do “inquérito” que, para bem ou para mal, nos marcaram a todos e que, certamente, nos obrigaram a reflectir sobre a profunda diferença entre erudição e cultura.

Também, por aquela altura, aparece o Rasmussen com o seu “Experiencing architecture” , bem mais respeitável que as posteriores cabotinices dos Eisenman e Liebeskinds.

Depois, alguns, saímos.

Saímos para Paris ou para Helsinquia, Nova York ou Filadélfia, para Roma ou para o Brasil.

Saímos para as colónias, para a guerra e para as câmaras municipais, para o liberal e para o ensino.

Nessa altura sair era ainda uma aventura.

Penso que o Eduardo acontece para estudar arquitectura lá para meados dos anos 70 e começa a vida profissional já depois do 25 de Abril.

Como dizem os italianos: beato lei.

Chega com um mundo aberto a novas ideias, com um lastro de arquitectura portuguesa já afirmada e reconhecida, um ambiente económico favorável a grandes investimentos e um público mais liberto das patologias estéticas do salazarismo.

Chega também, e penso que isso tem sido menos considerado na historiografia da arquitectura contemporânea em Portugal, com uma industria da construção muito mais sofisticada ( vale a pena lembrar que a siderurgia nacional só começa a produzir em 1961), novos regulamentos urbanos e da construção civil, um público mais exigente, empreiteiros melhor formados e mais equipados quer em capacidade tecnológica quer técnica, uma difusão da cultura arquitectónica que atinge os média em geral e não apenas uma literatura especializada, uma nova e vastíssima escolha de materiais e tecnologias, longínquos ou inacessíveis antes da integração de Portugal na Europa.

Estes elementos parecem-me essenciais à compreensão do ambiente em que começam a trabalhar os arquitetos portugueses a partir da década de setenta.

Não acompanhei a evolução da arquitetura portuguesa na década seguinte ao 25 de Abril e, mesmo depois, só a fui conhecendo através de publicações internacionais que, cada vez mais frequentemente, incluíam projetos portugueses.
Os meus contactos com Portugal foram muito reduzidos durante todos esses anos e a primeira vez que ouvi falar do Eduardo foi em Itália, referencia feita por um dos meus alunos em Roma.

A referência era tão elogiosa que fiquei curioso e procurei informação sobre a arquitetura portuguesa que não fosse apenas sobre o Siza.

Comecei a encontrar e a encontrar bastante e bom. Depois quando finalmente consegui parar uns dias no Porto fui ver a Casa das Artes e fiquei emocionado.

Era a arquitetura que eu gostava de ter feito.

Nela descortinei raízes de espacialidade, formalidade e materialidade que bem conhecia nesse cruzamento do perpeanho com o vidro
Anos mais tarde consegui tempo para ficar duas noites em Santa Maria do Bouro. Grande lição de contenção e respeito aventuroso e corajoso pela ruina e pela pré existência monumental.

Outra vez aquela conseguida coerência entre o detalhe e a intenção espacial, tantas vezes falhada em arquiteturas menos integradas e límpidas.

Nessa obra ressalta uma nova dimensão da mestria deste arquiteto: a compreensão da paisagem e do espaço exterior tão subtilmente trabalhado e moldado que poderia ter sido o habitat da ordem franciscana.

E no entanto uma obra tão erudita pode não ser acessível a qualquer hóspede ou utente.

É que o despojamento e o aparentemente simples não são qualidades e dimensões populares mesmo agora que o minimalismo se tornou moda.

Do estádio de Braga só conheço o exterior, não sendo o futebol industria que me interesse. Não sei se a coragem de desperdiçar tantos lugares das cabeceiras foi do arquiteto ou do cliente. Mas valeu a pena abrir aquele espaço ao colossal penhasco enquadrado pela eximia geometria do betão primordial equilibrado pelo sistema piranesiano das escadas. Uma arquitetura telúrica e monolítica que consegue dignificar o material artificial até ao nível da pedra que o enquadra e o eleva a par das incomparáveis inserções dos teatros gregos nas suas paisagens naturais.

O Pikionis do Philopappos teria apreciado.

Muito recentemente visitei a Casa das Histórias e o Museu de Bragança.

Dois casos diferentes mas com muito de comum.

No caso de Cascais a oportunidade que o sitio oferecia foi aproveitada para impor, num ambiente urbano menos que espetacular, uma presença simultaneamente centrípeta e misteriosa que, curiosamente, se encaixa e simultaneamente distancia da presença do residencial burguês que a envolve. Os estratagemas da solidez e densidade da construção que esmaga o buraco do acesso e o processo do tratamento cromático do material conseguem admiravelmente uma imagem que, sendo única, tem a força das geometrias ancestrais e primitivas.

Em Bragança é mais trabalhada a relação dos espaços interiores com os pátios, quer na horizontal quer na vertical, onde o fabricado existente impõe uma disciplina perfeitamente assumida, controlada e enriquecedora da sucessão espacial.

Nos dois casos repete-se e refina-se a mestria do detalhe, sempre criado como elemento que reforça e remata a gramática espacial e formal.

Doutras obras conheço o que se publica e com as limitações que as imagens congeladas impõem. Em todas transparece a segurança com que o arquiteto progride do conceito espacial ao processo construtivo levando por vezes a uma quase obsessiva atenção ao pormenor.

Trata-se de uma arquitetura erudita, mas não literária e muito menos retórica, responsavelmente inventiva ( ...embora com escapadelas histriónicas...) e sempre enraizada numa profunda poética espacial.

Estas dimensões incomuns, sobretudo quando tão sabiamente conjugadas, fazem do Eduardo Souto de Moura um exemplo de mestria a conhecer, estudar e compreender.

JOSÉ FORJAZ

2016