FILIPE BRANQUINHO

30 fotos do Filipe Branquinho

Não sou, nem nunca pretendi ser, um critico de fotografia.
Sou, como, qualquer cidadão, interessado pela criatividade e pela expressão visual do ambiente, natural ou humanizado, onde acontece o drama humano.
Uma exposição de fotografia pode ser muita coisa: um pretexto para a promoção pessoal do fotógrafo, uma oportunidade para a análise técnica de um trabalho que a mereça, uma descoberta de dimensões novas da realidade visual do mundo à nossa volta, um quarto de hora de êxtase estético, um momento para encontros sociais mais ou menos fugazes…
Mas pode ser mais.
Pode ser a descoberta de novos estratos e densidades poéticas duma realidade que julgamos conhecer bem.

O trabalho deste fotógrafo guia-se por este diapasão que lhe dá um ritmo tão sincopado que chega a uma
frugalidade, quase cruel, conseguida através da depuração franciscana do seu meio de expressão.
Mas, como em toda a arte, a sua leitura deve reconhecer a minuciosa construção de cada imagem, o seu “projecto”, o seu fingimento que nos faz lê-la como espontânea, quase uma resposta automática à provocação do tema descoberto e qualificado pela visão geométrica do olho do fotógrafo.
Essa dimensão, do perscrutar o mundo rectangularmente, faz-me pensar que os fotógrafos deviam nascer com pálpebras rectangulares ou, pelo menos, com um frame inserido no globo ocular que, permanentemente, lhes desse a capacidade de enquadrar, à sua escolha, uma visão em formato landscape ou portrait.
Mas assim não é e cada um destes artistas da congelação da imagem parece capaz de o fazer, isto é, de enquadrar, a partir de um quase atavismo adquirido ( que me seja perdoado o paradoxo...),
que esta é a primeira dimensão qualificante desta colecção de imagens: o enquadramento.

Enquadrar é escolher o que fica dentro e o que fica fora. É celebrar tanto a presença como a ausência dos elementos emocionalmente provocatórios.
Na realidade toda a arte é uma escolha e toda a escolha um sacrifício.
Escolher é abstrair. É identificar o essencial, escolher o mais significante.

A arte é uma escolha, difícil... se tomada a sério. Escolha entre aceitar o mundo como ele é ou ter a necessidade e a coragem de o mudar.

Na fotografia, quanto mais representativa, ou menos subtilmente abstracta, essa escolha, ou essa recusa, são mais difíceis que nas artes plásticas onde o artista representa (...ou apresenta?) apenas o que escolhe e lhe parece essencial.

A série de imagens que o Filipe Branquinho nos propõe abre caminhos e pretexto para reflexões sobre tema e conteúdo, forma e expressão, imobilidade ou dinâmica, vibração sensorial, composição ... humanidade.

O tema ou temas desta colecção é, ou são, mas nem sempre à primeira vista, o presente do passado.
Cada imagem explora a patina do tempo sobre os espaços e as formas, os ambientes e os materiais, a cor e a luz e a urbanidade do local.
Branquinho não explora estes temas com qualquer saudosismo romântico ou sentimentalista mas sim com a perspectiva e o olho do repórter.
A ausência, quase geral, da presença humana acresce, em cada imagem, a intensidade de uma presença dramática, surda e ambígua, que se revela na ilustração e no uso do sitio, como se visto pelo seu dono, utente ou ocupante.
A maior força destas imagens poderosas vem-lhe exactamente do que deixa para o observador:
a responsabilidade do senti-las como parte do seu universo imaginário ou de um mundo que porventura nem imaginava e que vai deixa-lo numa perplexidade sugestionada pelo aleatório e esporádico registo de um universo de realidades subtis descobertas e alinhadas com um sentido que cabe ao fotografo fazer-nos descobrir: a intensidade poética dos espaços e dos momentos mais prosaicos e mais comuns, pelos quais passamos, cegos e surdos.
É nessa lição de sensibilidade à visão do quotidiano e do comum, à força do mau gosto e à novidade do convencional; a esse permanente estar alerta para os elementos mais secundários do que nos envolve que reside a subterrânea mestria e antiheroica qualidade desta sequência de imagens.
O tema não é portanto funcional ou dedicado.
O tema é, aqui, o processo.
Não o processo técnico ou mesmo estético, que lhe são sempre indispensáveis, mas o processo de ver o mundo, e como os homens o vivem e transformam de acordo com as suas culturas, idades e meios e, porque não, maneiras de o sentir e adaptar, impondo-lhe os seus símbolos, os seus fantasmas e os ecos apagados dos seus sonhos incumpridos.

Em cada imagem esta reverberação é explicita.
Um copo de vinho à espera de cliente; um Presidente
colado por cima do calendário; um sofá de pelúcia numa casa de ferro; uma toalha de plástico às flores num laboratório fotográfico; duas sanitas verdes num sanitário público; duas consolas “arte nova” no vestiário de um cinema dos anos cinquenta; a lepra que comeu as cadeiras do maior cinema da cidade; o rolo de fio eléctrico pendurado na fachada neoclássica e maçónica da escola industrial; o calhau que mantem aberta a janela da escola; o espantoso contraste entre a qualificação de “nacional” atribuída a uma instituição alojada num edificio inacreditavelmente deteriorado; a inescapável sensação de interior de caixão numa igreja wesliana; a surreal presença de uma sanita debaixo da mesa num laboratório de taxidermia coexistindo com um sofá vermelho mal taxidermado; a incrível exposição de um lago de tinta verde onde deveria estar uma piscina: a alegre mistura de posters políticos e de propaganda de disk jokeys e produtores de barulho, como antecâmara de um arquivo sonoro; um balde de plástico vermelho que convive sem complexos com uma mesa técnica antediluviana; um restaurante universitário pintado expressamente para tirar o apetite aos comensais; um torreão que desafia a gravidade no centro de uma fachada ... inexplicável.
De uma para outra destas imagens a coerência é esmagadora.
O fotografo é um agente secreto que espia uma pátria feita de intenções inconfessáveis, porque inconscientes da sua própria mistura de culturas e de idades, de memórias e de valores, de realidades conformes e coerentes com o estado das coisas e das pessoas, num mundo mal parido que ainda mal se percebe a si próprio.
As únicas duas figuras humanas que aparecem nesta série impressionante de momentos congelados são parte da mobília e têm o valor de um ensaio de antropologia cultural.

Conseguir esta ausência do autor como protagonista da mensagem não é fácil. Requer uma total economia de meios, uma desavergonhada aceitação de rigor académico e expressivo, uma tecnologia assimilada e manipulada á maneira zen.

Na forma e na expressão se manifesta a maturidade do criador capaz de despertar a emoção.
Vejamos.
É sintomática a falta de diagonais que nos oferece um mundo de ortogonais: verticais e horizontais.
Um mundo rigoroso sem medo das simetrias.
Um mundo frontal, sem a profundidade das vistas de oblíquas onde as perspectivas e as dinâmicas do movimento podem distrair da leitura brutal e imediata que se consegue com o ponto de fuga no centro geométrico do quadro.

Mas não se trata de mais um artifício repetido e fácil.
Assistimos, aqui, a um exercício de controle exaustivo dos meios expressivos para obter a densidade e o mistério que as imagens não explicitam.
Este estatismo, por oposição a um qualquer dinamismo, é um ingrediente poderoso do drama. Não há aqui qualquer concessão ao estratagema do “bonito” que nos distraia do enredo das vidas retratadas, por inferência e sugestão, habitando estes ambientes.
Esta imobilidade beneficia e completa-se com o silêncio que estas imagens exalam.
Silêncio que lhe vem da ausência da vida presente e de um vazio sem hora.
É um silêncio que fala por sugestão, sem ensurdecer.

A outra dimensão notável desta colecção é a cor.
A cor, nestas imagens, é uma irrealidade.
Talvez o mais significativo exemplo é o de uma casa a preto e branco enquadrada a árvores verdes.
Lembra-me o titulo de um filme que falava de pretos e brancos a cores.
Percebe-se em todas estas fotografias uma velatura que homogeneiza o ambiente e, subtilmente, estabelece continuidades. Faz da cor um protagonista que chega a absorver 100% de atenção.
A paleta resultante traz-nos a noção de uma reinvenção da realidade, teatral e totalmente controlada.
Nalgumas imagens sente-se que a cor resultou, primariamente, na força brutal da composição.

Veja-se por exemplo o caso da escola industrial: inacreditável demonstração de perspicácia cinegética do grande exemplo de pura abstracção formal, em que até o céu se envergonha de ser azul; ou o caso da piscina verde, caso único em que o céu se apresenta como parte da composição geométrica e em que as nuvens obedecem, espantosamente! ás linhas de fuga da perspectiva ! Como é, também, o caso do alguidar vermelho no centro duma composição irreal de verdes no Arquivo Histórico ou as coloridas náiades art nouveau que encaixilham o branco e mais branco da Casa Velha ou, noutra ainda, o valor da cor da mobília de madeira contra o cinzento integral do Casa de Ferro. Talvez o caso mais notável seja o dos sanitários do cinema onde inacreditáveis sanitas azuladas equilibram, exactamente na convergência da perspectiva, carmins e verdes, debruados, num ambiente ... propício à função.
A secura dos meios estéticos desta colecção, como a simplicidade dos seus elementos expressivos, não é pobreza de domínio ou excesso de controle, mas exactamente o contrário.
Não há acasos nesta produção. Simetrias e geometrias compositivas, economia e frontalidade quase assassina das perspectivas, absoluto controle da matéria cromática e a conseguida transmissão do espírito dos ambientes não estão ao alcance do neófito: requerem uma maturidade visual e técnica que, noutros, menos hábeis e experimentados, conduz inevitavelmente a uma real pobreza da imagem e do ela pretende transmitir.
Esta é uma das mais difíceis e enganosa dimensões da prática das artes: a grande peça parece fácil.
Afirmava Picasso que se leva uma vida inteira para se conseguir desenhar como uma criança.
Hokusai no momentos finais da sua vida lamentou-se que agora, que já conseguia desenhar uma folha, é que a morte o vinha impedir.

Toda a arte é sempre e só uma procura de perfeição.
Duma perfeição que não se conhece.
Descobre-se.
Descobre-se através, e só, quando se torna indispensável a quem a pratica.
Mas nunca é suficiente.
Este drama, ingrediente indispensável à criação, aprendeu o Filipe a vivê-lo desde muito jovem.
Terá muito ainda a suportar mas vejo-o capaz de não se trair com as facilidades que soube superar nesta exposição e que, infelizmente, são tão comuns noutros, menos comprometidos ou delas menos conscientes.
O artista não tem remédios nem desculpas: tem de pagar o preço do que escolheu ... talvez mesmo sem consciência do preço dessa escolha.
Uma vez parte desta confraria, escapar-lhe é um suicídio mental e emocional.
Beryl Makham, a magnifica aviadora americana desaparecida nas nuvens numa derradeira viagem à volta da terra, escreveu no seu livro “West with the night”:
“No human pursuit achieves dignity until it can be called work and when you can experience a physical loneliness for the tools of your trade, you see that the other things – the experiments, the irrelevant vocations, the vanities you used to hold – were false to you”

Para o Filipe deixo este meu simples e terrível recado:

acima do bom é que está a dificuldade; há mais distância entre o bom e o perfeito que entre o mau e o bom.

JOSÉ FORJAZ

2015