MALANGATANA VALENTE NGWENHA

Elogio de Malalangatana Valente Ngwenha, por ocasião do Doutoramento Honoris Causa que lhe é atribuído pela Universidade Politécnica


Elogiar alguém é uma difícil e delicada operação, especialmente se esse alguém nos é próximo e irmão de luta e de interesses, de compromissos e de alegrias.
Ao elogio impedem pudores antigos que nos vêm da dificuldade em confessar emoções e do receio que nos tomem por bajuladores ou compradores de amizade.
Mas o Malangatana e eu temos a mesma idade e fomos à mesma escola de interesses, de compromissos e de alegrias.
O nosso mestre foi o mesmo, os nossos interesses despertaram ao mesmo tempo, as nossas alegrias foram­se definindo na mesma direcção e com a mesma intensidade.
Os nossos caminhos foram-se cruzando e afastando e convergiram definitivamente quando ambos fomos chamados a colaborar, ainda mais activamente, na construção de um Moçambique melhor, lá pelos meados 1974, ano de boa memoria para todos nós.
Dai para cá cresceram e aprofundaram-se a amizade, o respeito mútuo e a tolerância.
Tudo isto, o digo, para não deixar dúvidas que aqui não há lugar para visões frias, imparciais, objectivas e independentes.
Aqui fala-se a linguagem da emoção pela sabedoria, e da tolerância pelos defeitos, que tornam os amigos mais humanos e admiráveis.
Mais estimáveis.
Falar do Malangatana é fraca alternativa a falar com ele, aquele que gosta das crianças e de quem as crianças gostam, o que gosta das pessoas e de quem todas as pessoas de boa vontade gostam.
Esta oportunidade vou eu aproveita-la para falar sobre a natureza desta amizade e deste amigo.
Ao longo da vida as amizades vão-se definindo.
As raízes dessas ligações vão-se fortalecendo, vão-se tornando mais exigentes e mais selectivas.
Nos nossos amigos vamos vendo mais claramente o reflexo de nós próprios, das nossas qualidades e defeitos, das nossas fraquezas e das nossas forças.
É a amizade que nos dá a coragem, e a obrigação, de criticar os amigos, e isso leva-nos a avaliar criticamente as nossas próprias posições.
No Malangatana vejo raras qualidades e virtudes.
A primeira é a sua capacidade de pensar o mundo para lá do momento que passa ... e de si próprio.
A sua capacidade de perceber o sentido e o valor do passado e da tradição, e o significado do que devemos transmitir e deixar para depois de nós.
Vejo nele um antropólogo, enxertado de profeta.
A segunda é a sua lealdade, que se traduz na generosidade com que defende e promove discípulos e colegas a quem sabe, sempre, reconhecer qualidades e virtudes, perdoar defeitos e aceitar limitações.
Vejo nele um homem justo.
A terceira virtude é que ele é socialmente daltónico ... mas só ao preto e branco.
Esta é uma virtude, muito rara ainda entre nós, e que lhe vem da naturalidade com que aceita todas as pessoas à sua volta, atribuindo-lhes as mesmas atitudes esclarecidas que o definem a si próprio
Vejo nele um cosmopolita, um homem do mundo.

A quarta é a sua cultura.
Essa vem-lhe, como consequência lógica, de uma outra virtude não menor: a da sua curiosidade.
Nele a cultura do espírito é um produto da maneira como sabe aproveitar o que viu, leu e ouviu do mundo e como o soube ver, ler e ouvir.
É também a consequência de um refinamento constante da sua sensibilidade aos fenómenos estéticos, aos valores poéticos e ao drama humano universal.
A sua é, portanto, uma cultura orientada, determinada por valores éticos e não por erudições estéreis e vazias de sentido.
É uma cultura útil.
Vejo nele um homem sábio.

A quinta virtude deste amigo é aquela que em inglês se chama "compassion", e para a qual não achei ainda a tradução mais adequada.
Trata-se da capacidade de sentir como próprio o drama alheio e de se sentir obrigado a contribuir para o resolver.
Vejo nele um homem bom.

E, finalmente vejo, e invejo-lhe, uma virtude das mais difíceis de manter ao longo de toda uma vida: a ingenuidade do entusiasmo pela beleza da vida e por tudo aquilo que ainda não fez e quer fazer.
Esse e um estado a que chega somente quem cultivou todas aquelas outras virtudes e que agora lhes colhe o fruto na forma de uma juventude renovada.
Vejo nele um homem jovem.
De todas estas virtudes faz ele o combustível da emoção com que trabalha os temas e a plasticidade da sua obra de escultor, poeta, cantor, dançarino e...pintor.
Porque, quase me esquecia de o dizer: ele pinta!
E é como pintor que lhe chega este honoris causa.
Mas não só porque pinta, mas o que pinta e como pinta.
De que é feita, então, a pintura deste pintor?
De expressão pois que toda a pintura é sempre uma forma de expressão.
Cor e forma, risco, textura e superfície são as ferramentas visuais, e técnicas, de quem pinta para lá das dimensões lúdicas do gesto infantil ou do movimento descomprometido do adulto que manipula as mesmas ferramentas por deleite diletante.

0 artista exprime, transmite, interpreta, cria emoções e, ao faze-lo, acrescenta ao património visual universal mais um momento poético, mais um capitulo que enriquece quem o aprecia e compreende.
A pintura do Malangatana é, tentarei prová-lo, uma extensão da sua personalidade.
Reflecte as virtudes que lhe reconhecemos e exprime o drama e a comédia na visão que delas tem o humanista, que é.
É uma pintura responsável e, para quem a souber ler, responsabilizante.
Analisar-lhe o percurso estético é tarefa para críticos de arte, que é uma profissão que não pratico.
Sendo, no entanto, eu próprio, oficial desse mesmo ofício de dar forma plástica às ideias e aos sonhos, nossos e dos outros, cabe-me, tanto quanto o saiba eu, referir a evolução, as características e as qualidades mais marcantes na obra deste pintor.
Para tal devo voltar aos meados dos anos 50 quando ambos trabalhámos para o mesmo patrão e mestre o arquitecto Pancho Miranda Guedes.
Eu como desenhador de arquitectura, ele como pintor por conta ou, se quisermos, residente.
Era o tempo do Mestre Frederico Ayres e do filho, João Ayres, do Bronze e do Calçada Bastos, do Antero, do Cabral e da Maluda e mais tarde do Garizo do Carmo e outros, que praticavam uma pintura que ia de um hesitante post-impressionismo a um pré abstraccionismo tentativo e, talvez, ainda provinciano.
A descoberta deste Malangatana jovem fenómeno, pelo Augusto Cabral e a sua adopção e promoção pelo Pancho Guedes trazia consigo uma fundamental dimensão: colocava as artes plásticas na vanguarda do movimento de libertação o e valorização da intelectualidade artística negra cuja única manifestação até ali respeitada tinha sido a poesia.
Entrou assim este menino no templo dos doutores que não mais puderam, ou quiseram, fechar-lhe as portas.
Não posso, então, deixar passar esta oportunidade para prestar homenagem aquelas outras figuras do nosso panorama artístico que tiveram o mérito de o descobrir e a inteligência de lhe reconhecer o valor.
Não entrou no entanto, ele naquele templo por paternalismo ou condescendência mas sim por força da sua original criatividade e imparável necessidade de pintar.
Ao entrar no mundo das artes plásticas trouxe ele consigo e abriu uma nova dimensão, ainda subliminar naquele tempo e lugar: o problema da identidade artística africana "erudita", no meio artístico colonial.
Não que o ethos africano e o genius loci fossem alheios à temática e às preocupações dos artistas plásticos locais mas, pela primeira vez, aparecia um negro que se apropriava dos meios de expressão não tradicionais africanos para resolver, em linguagem estética universal, a expressão plástica dos seus fantasmas e dos seus deuses, da sua sensualidade e da sua sensibilidade.
Ficou depois dele mais aberto esse mundo a outros que marcaram a construção do nosso panorama, tão rico, no mundo das artes plásticas: Bertina, Chissano, Mankeu, Reinata e tantos outros que nos foram e vão enriquecendo o panteão.
Daí para cá o Malangatana tem seguido exemplarmente a única e indispensável disciplina que todo o artista conhece: o trabalho.
Nas condições em que o Malangatana evoluiu fácil lhe teria sido passar a ser uma imitação de si próprio.
África, e Moçambique, necessitavam, e necessitam de personalidades que possam contrapor-se aos criadores, na fronteira das ideias e das obras, dos outros continentes.
O risco da promoção dos menos capazes, dos medíocres e dos mais activos na sua auto promoção, mas menos conscientes da necessidade de se medirem pelo nível mais alto de competência universal, é muito grande nas nossas condições culturais onde se toma fácil acreditar que se é peixe grande no pequeno lago local, quando não se é senão peixe miúdo no grande lago global.
O Malangatana ultrapassou fronteiras nacionais e continentais e está tão à vontade no Japão como na Islândia ou no Peru como na Austrália.
Está à vontade porque está ao nível e a par dos seus pares nessas latitudes e nessas longínquas longitudes geográficas e culturais.
Está à vontade porque acumulou o lastro de experiência, de esforço e de trabalho que lhe dão essa segurança.
Está à vontade porque se mantem fiel ao compromisso e ao imperativo de interiorizar e exprimir, com uma linguagem cada vez mais universal, o drama do individuo e a comédia humana que o comovem e o estimulam.
Nas suas mãos a cor não é colorido.
A cor é protagonista e actor no teatro das sensações a despertar, pano de fundo da narrativa visual e iluminação das descobertas que os seus quadros provocam.
Nas suas mãos o desenho é esforço de contenção da retórica que lhe sugere o borbulhar subterrâneo das superfícies que explora.
Nas suas mãos as texturas são vestuários agora castos, ali reveladores de estratos acrescentados por um qualquer pudor mal escondido.
Nas suas mãos a composição não é um espartilho formal e apriorístico mas um processo orgânico, adubo e seiva deste embondeiro-gente.

Nas suas mãos a tela em que pinta despe-lhe o sentir e desnuda-lhe as inconfessáveis solidões que nos trazem mais próximos a nós próprios
Com estas dimensões vai ele construindo a sua obra.
A dele é uma obra unida, monolítica, densa de motivos, motivações e ... motes.
É uma pintura contínua, como se tivesse pintado apenas, e toda a vida, o mesmo quadro do qual vamos conhecendo fragmentos e estudos, figuras e figurantes, dias e noites, estações do ano, disposições de espírito, religiosidades e experiências sensuais, elegâncias e brutalidades.
É uma biografia visual e plástica, quase confissão quase carta ao futuro, sempre comunicação cromática, sempre pintura.
Esta pintura prolonga-se-lhe na escultura e na gravura, na poesia e mesmo na dança, que pratica com a elegância de elefante levezinho.
É uma pintura que se vai descobrindo a si própria, construída de tela em tela, desenho a desenho, sofrimento a sofrimento, alegria a alegria.
Os seus quadros, desenhos, gravuras e esculturas têm, em última análise, uma ambição desmedida: a de neles caberem todos os moçambicanos.
Aos poucos laboriosamente, vai ele acrescentando mais de nós todos.
Mais crianças e mulheres , mais homens e mais bichos, mais anjos e mais monstros.
Todos nós.
Um dia, um dos críticos a vir, dar-se-á ao trabalho de os contar e de perceber quantos estão por trás de cada um, por trás de cada intenção, de cada abstracção, de cada metáfora visual.
Dar-se-á conta que nesta pintura cabem, afinal, muito mais do que os vinte milhões de moçambicanos.
Cabe toda a humanidade, único tema que ao Malangatana interessa: a humanidade em todas as suas formas, os seus sofrimentos e as suas alegrias, depravações e exaltações.
Eu penso que ele o tem conseguido, não só porque a conhece e a quer desenhar mas porque sabe usar a cor como a força anímica que a exprime.
Consegue-o porque se mantem fiel à sua mais original ingenuidade: a de acreditar que o que tem para dizer tem sentido para os outros e que a arte é o filtro indispensável à força do que exprime e à justeza do que pensa.
Será, então, certo que só através da arte conseguimos a força da verdade?
Este é, certamente, o mérito mais profundo deste artista, Malangatana, mestre: continuar a acreditar na humanidade, em si próprio e no valor da arte.

Este doutoramento é a prova de que nós todos acreditamos nele.

Vai um abraço caríssimo Doutor Malangatana Valente Ngwenha!

JOSÉ FORJAZ

2007