MESTRE FIL

Mestre Fil: Octávio Lixa Filgueiras

Naqueles anos 50 e 60 todos nos conhecíamos. Todos conhecíamos todos: arquitetos, pintores e escultores, professores e alunos, o Tino e o maquetista do gesso mesmo ali ao lado da Escola, na Rodrigues de Freitas.

Naturalmente que havia afinidades eletivas, por razões fortuitas ou ideológicas, politicas, sociais ou mesmo sentimentais.

O Fil, assim todos o chamávamos, era mais reservado, com mais responsabilidades exteriores ao nosso circulo mais restrito mas com o mesmo grau de participação nas ferozes e permanentes controvérsias com que se alimentavam os dias e as noites com epicentro no Majestic.

Por razões para mim poucos claras um dia convidou-me, era eu ainda estudante, para o ajudar, dentro das suas responsabilidades como arquiteto das Caixas de Previdência e foi-me passando pequenos projetos de residências económicas em zonas peri-urbanas na região do Norte. Aprendi muito nas conversas com ele sobre uma arquitetura válida aos níveis mais baixos da economia portuguesa e o problema da habitação foi, talvez com essas raízes, um interesse constante que definiu muito da minha vida como arquiteto.

Já professor de Arquitetura Analitica convidou-me ele, algumas vezes, para o apoiar nas aulas sobretudo reconhecendo-me um interesse particular pelas tecnologias construtivas das arquiteturas grega e romana.

Talvez venha, sobretudo daí, uma proximidade que arriscaria chamar de camaraderie, que mantivemos depois durante muitos anos mesmo quando, tendo eu já voltado para África, o visitava nas raras vezes que vinha a Portugal, quer em sua casa quer na York House em Lisboa, onde sempre se instalava quando tinha de cumprir com as suas responsabilidades como zelador do património nacional construído.

Como interesses comuns juntava-se, também, a minha paixão pela arquitetura naval e em geral por barcos com a sua expertise sobre a arqueologia, a história e a construção das embarcações tradicionais da costa e das águas interiores portuguesas.

Mas foi como pensador da função social do arquiteto que a profundidade da sua reflexão mais clara e fortemente me influenciou e ajudou a formar, numa altura em que as escapadas para um esteticismo menos socialmente preocupado encontravam justificação na brutalidade provinciana do regime.

Hoje, mais do que então, essa responsabilidade encontra razões mais vastas e universais pois se tornou evidente que ao arquiteto se impõem dimensões novas e menos explicitas do que há 50 anos: a sua parte de responsabilidade pelo equilíbrio ecológico e, em ultima analise, pelo habitat humano em toda a sua extensão funcional e geográfica.

E, porque a arte da arquitetura é aquela que, em todas as suas dimensões, mais influencia a sociedade e afeta o ambiente, o problema é agora tão vasto que obriga a que cada decisão técnica ou artística seja considerada na sua consequência social e ecológica.

É portanto a disciplina artistica que mais responsabiliza socialmente quem a pratica.

Foi isto que aprendi com o Mestre Fil.

JOSÉ FORJAZ

2017