O PINTOR DAS PAREDES

O pintor das paredes. Talvez 2010

Se o Malangatana tivesse nascido em Nova York , Londres ou Paris provavelmente teria começado a sua vida artística a fazer grafittis, às escondidas da policia.

Acontece que o luxo de ter latas de tinta para gastar e a possibilidade de aceder a paredes limpas e grandes ou a carruagens de subway, não estavam abertas a jovens pobres e descriminados, nos anos 50 em Lourenço Marques, e o nosso pintor teve que seguir um outro percurso mais lento e penoso para satisfazer a sua necessidade de expressão artística.

Mas uma dimensão nunca ele cultivou: a de miniaturista.

Logo desde os primeiros exercícios lhe veio a coragem das grandes superfícies, a falta de medo das grandes composições, o à vontade do gesto e a quase inconsciência com que se desencaixava dos limites físicos da peça.

A revolução moçambicana necessitou de se exprimir por todos os meios e, quase instantaneamente, apareceram os cartazes , os jornais de parede ilustrados, a caricatura politica e... os murais. Não era uma revolução envergonhada ou timidamente retraída e, após muitos anos de pintura de cavalete e temáticas irrelevantes, desabrochou numa explosão de criatividade e na revelação da paixão pelas artes da expressão plástica de que o Malangatana foi sempre o farol.

Não me cabe, nestas poucas linhas, fazer o roteiro ou a cronologia dos murais nem estudar as tecnologias da pintura parietal do Malangatana. Nem de tal seria eu capaz. Interessa-me, contudo, uma reflexão sobre a sentido e o potencial expressivo dessas peças, feitas sempre com uma total devoção e paixão pelo trabalho, que testemunhei tantas vezes no pintor.

Talvez o caso mais extraordinário, dos muitos que acompanhei e em que de diversas formas participei, foi o do grande painel para o Pavilhão de Moçambique, que projetei para a Expo 98 em Lisboa. A parede exterior, que tínhamos escolhido para a contribuição do Malangatana teria uns bons 50 metros de comprido por cerca de 2 metros de altura. O apartamento do Malangatana, em Lisboa, tinha um sala de estar com cerca de 15 metros quadrados e nenhuma parede teria mais que 5 metros de comprimento. Quando nos juntámos em Lisboa para instalarmos o pavilhão ele levou-me a casa para me mostrar as ideias que tinha para o mural, mas não me disse logo que era ali que pensava alinhavar a composição verdadeiramente monumental que teria que produzir. Só depois se me tornou claro que era esse o caso. Nem coragem tive para me mostrar incrédulo... E foi assim feito, em painéis com cerca de um metro de largura cada um, alinhados e acabados no lugar, em pouco menos que uma semana !!!

JOSÉ FORJAZ

2010