RAUL HESTNES FERREIRA

Raul Hestnes Ferreira

Do ISCTE a Fontenay, memórias de viagem

Outubro de 2004

A essência das minhas viagens são as arquiteturas que as povoam.
Casuais ou escolhidas, convidado ou intruso, vou por esse mundo com os olhos a 360 graus, observando e vivendo os espaços e as formas, as arquiteturas onde me sento, me abrigo, trabalho ou passeio, sofro ou gozo.
Muitas é com um vislumbre lateral e fortuito que descubro a presença de uma obra mais rara, mais cheia daquela intensidade de valores que me provocam sempre uma profunda emoção emocional.
Com grande emoção me levo, e me deixo guiar, à contemplação e à e à vivência de um espaço inteligente e humano, de um organismo deformas que glorifique a luz e a sombra e a matéria e a sua desmaterialização, que assente no terreno como a sua consequência inevitável e se explique na lógica natural do seu percurso, demonstrando a coerência da sua invenção dos volumes aos detalhes.
Nesta última viagem, entre amigos e deveres, mais uma vez se ofereceram aquelas oportunidades, aqueles prazeres, aqueles privilégios.
E foram dois grandes os momentos de emoção.
Em Lisboa com o grande amigo Raul Hestnes Ferreira, na Borgonha com outro grande amigo, e sábio, o Patrice Rauszer, também arquiteto e professor mas, agora, exclusivamente dedicado ao oficio de pensar e de escrever.
Com o Raul fomos desvendar uma tarefa sua onde investiu mais de vinte anos de trabalho de projeto e de construção – o campus do ISCTE ( Instituto Superior de Ciências do Trabalho e de Empresas), do INDEG ( Instituto para o Desenvolvimento da Gestão Empresarial) e do ICS ( Instituto de Ciências Sociais).
Com o Patrice voltámos, ainda e sempre, a Fontenay e ao esplendor contido e surdo do românico cisterciense.
O acaso cada dia me parece mais raro e, nesta sequência de momentos escolhidos, julgo descobrir uma lógica exata, que nasce do interesse e da paixão por essa gastronomia dos sentidos que é aquele, já referido privilégio, nosso por sabermos medir-lhe as dimensões transcendentes da poesia cristalizada na arquitetura conseguida.
É dessas dimensões que quero falar.
Não é na fortuita semelhança das formas e das densidades de luz e das sombras que a alimentam, da presença palpável do material ou mesmo da continuidades e das pulsações das três dimensões mais conhecidas do espaço, tão bem modeladas nos dois casos, que quero falar.
Quero falar da essência e da atitude pois que os resultados, e o seu mérito, são delas a inevitável consequência.
Do arquiteto de Fontenay não sabemos nada. Mas seria parecido com o Raul.
Por outras palavras: conhecendo o Raul podem deduzir-se-lhe as arquiteturas.
Conhecendo Fontenay pode reconstruir-se-lhe o arquiteto.
Daí que das essências espaciais, e das mesmas e patentes atitudes, se possa concluir a semelhança de caráter destes dois arquitetos tão modernos e tão medievais os dois.
Intemporais.

Nas duas arquiteturas conta cada espaço e cada forma, conta a alternância e o pulsar das escalas e das proporções, conta a lógica de cada elemento estrutural e a simplicidade da sua expressão, conta a modéstia do pormenor, tão sábio que só os olhos atentos e educados lhe percebem a ciência e a invenção; conta a liberdade de compor segundo a evolução do programa sem perder a integridade do todo.
Nestas duas arquiteturas, também, os dois arquitetos aceitaram e responderam a programas bem precisos e ordenados para os espaços a encadear e modelar, entre transições e momentos de chegada.
São duas arquiteturas para albergar o pensamento, a reflexão, a meditação e a ação.
Em Fontenay uma parte do organismo servia para o trabalho do ferro mas a sua integração no complexo monástico é uma lição de dignidade reconhecida ao trabalho manual e à inteligência no uso das forças naturais da água e da floresta.
Em Lisboa o organismo universitário é mais complexo mas menos diverso. Fica-lhe de fora o residencial e o industrial.
A sua abertura a uma classe variada de usuários e de usos traz-lhe a mesma necessidade de articulação integrativa e de controle da escala e da proporção da cada espaço.
Ambas estas arquiteturas se desenrola e se explicam, se ordenam e se justificam em função do espaço que envolvem.
Em Fontenay o claustro; os pátios no ISCTE.
Ambas estas entidades espaciais são entendidas como o centro focal da vida que se lhes desenrola em torno, como os grandes elementos orientadores funcionais e visuais de todo o conjunto dos espaços e das circulações, como uma redução, à escala humana, do grande espaço exterior agora humanizado.
Numa dimensão ofereceu o ISCTE mais oportunidades de manipulação espacial: na vertical.
Aqui encontro o arquiteto uma das razões para a sua mais importante contribuição. Falo das escadas e das rampas, sempre magnificamente manipuladas, espacialmente e no detalhe expressivo.
Em Fontenay a única escada da abadia é a de acesso ao dormitório cuja nave, tardia e magnifica, se apercebe e se descobre a partir dos primeiros degraus que lhe definem o volume denso, apenas anunciado na cabeceira da nave lateral direita.
No ISCTE as oportunidades são múltiplas e o arquiteto não perdeu nenhuma.
É nos espaços intersticiais, horizontais e verticais, que se revela com mais segurança a mestria desta arquitetura que, ao longo de quase trinta anos, se foi fortalecendo, refinando e afirmando sem necessidade das contorções histéricas e retóricas que são, infelizmente, a regra histriónica mais seguida hoje.
Naturalmente que uma tão correta arquitetura não poderia deixar de ser concebida em termos ambientais e tecnológicos, que são sempre a fundação mais sólida para o sucesso de um organismo de tão diversas valências. Igual correção encontramos na sua integração urbana, respeitadora de escalas e de verdes e criadora de uma imagem de grande dignidade institucional.
Na generalizada mediocridade da produção contemporânea, autodesculpada pela suposta imposição dos valores especulativos e da incultura do cliente, uma obra exemplar, como esta que reflete certamente a cultura iluminada do cliente, só seria possível com a atitude de intransigente busca de qualidade em todos os níveis da sua concepção, da elaboração do seu profissionalíssimo projeto e da vivência apaixonada do seu processo de construção.
Merecera esta obra uma outra critica mais objetiva, quantitativa e desapaixonada pois lhe faria ressaltar, ainda mais, as qualidades de performance e de economia, que na minha visita apenas percebi. Acredito e espero que venha a ser feita, para sua justiça.
De mim fica aqui esta apreciação, cada vez mais rara e difícil de sentir e de fazer, à produção de um arquiteto fora das moda e, por isso mesmo trabalhando os valores mais intemporais e mais universais desta disciplina que se reconhece e se identifica sempre, na permanente modernidade intemporal das obras emocionantes onde os materiais cantam e o espaço vibra a cada momento do percurso.
De Fontenay ao ISCTE, e de muito antes a muito depois, esperemos que a arquitetura seja sempre o reflexo dos valores que estão, nestas duas obras, tão presentes.

JOSÉ FORJAZ

2004